Preciso construir uma ponte

quarta-feira, dezembro 17, 2014



Poem a Day - Day 17 | o perdão

Preciso construir uma ponte

Nós estávamos em um parque num dia quente de verão, havia uma toalha quadricula e uma imensa cesta de piquenique, tudo bem arrumadinho aos pés de uma velha árvore. Ele estava sentado enquanto eu estava deitada com a cabeça apoiada na coxa dele. Nós estávamos admirando as nuvens e tentando compará-las a animais, mas a coisa não estava dando muito certo, quase nunca consiga achar uma nuvem parecida com algo de verdade.

Deixei que ele olhasse para as nuvens sozinho e me prendi vendo um pai brincando com sua filha no balanço, eles pareciam tão felizes... Não sei quanto tempo fiquei ali olhando aquela cena tão diferente para mim, só me reencontrei quando Tom apertou gentilmente as minhas bochechas na tentativa de me despertar.

- Você se perdeu ai, foi? – Tom disse no tom mais gentil possível.

- Acho que sim – sorri, o sorriso mais falso que tenho e ele logo percebeu.

- O que foi, princesa? Você ficou pensativa por muito tempo e sei que não foi a sua incapacidade de enxergar as nuvens com a imaginação que fez isso com você... Quer me contar o que foi?
Olhei paras nuvens um instante e mordi os lábios. Não gostava de tocar naquele assunto, não gostava 
de lembrar da minha infância, talvez tenha sido uma péssima ideia ir para o parque no dia dos pais...

- Aqueles dois chamaram a minha atenção – apontei para o pai e a menininha – acho que sinto falta de tudo isso, mas como é possível sentir falta se você nunca teve? – Tom me ouvia atentamente e senti uma lágrima quente escorrer pela minha bochecha. – Meu pai nunca foi presente Tom, ele sempre preferiu o mundo, nossa casa não era suficiente, um jantar comigo e com a mamãe não era o bastante, uma tarde no parque? Impossível. Não havia diálogo, não havia abraços, não havia “eu te amo”. Tive que aprender à amá-lo a distância, tive que me contentar em saber que sempre seria ele lá e eu aqui. – não sabia como, mas as palavras saíram como uma enxurrada, nunca havia me aberto assim com ninguém.

Fiquei em silêncio por um instante buscando na memória lembranças que me mostrassem que estava errada, que meu pai tinha sido tão presente quanto o pai daquela garotinha estava sendo agora, mas não encontrei lembranças. Não tinha histórias “só nossas” para contar. Não tinha nada além de dor.

- Sabe o que é crescer com um estranho? Você sabe o que é não reconhecer a pessoa que você mais deveria conhecer? – me ergui e me sentei ao lado dele. Tom passou um braços pelos meus ombros e meu puxou para perto dele.

- Não, eu não sei o que é isso, Clara. – ele respirou fundo – Mas algo aqui dentro de mim me diz que você precisa perdoá-lo, por mais difícil que seja. – ele me soltou um pouquinho e olhou no fundo dos meus olhos – Talvez ele tenha um motivo para ter feito tudo isso, talvez não, mas isso não importa, enquanto você não perdoar ficará presa a isso e jamais poderá ser feliz de verdade, porque a sua mente sempre ficará lembrando disso. Seu pai pode ter escolhido ser distante e frio, mas e você o que escolheu? Pelo que conheço você é a pessoa mais amorosa que eu já vi, não costuma desistir das pessoas, ama ser feliz e fazer as outras pessoas felizes também, por que você não luta pelo seu pai?

- É mais difícil do que parece, amor. – deixei as lágrimas saírem.

- Eu sei, mas será mais fácil quando você olhar para ele sem julgá-lo, porque não perdoar é isso, é julgar a mesma pessoa todos os dias, sem dar uma chance a si mesmo de mudar essa história. Ele pode não ter forças para mudar isso, mas quem é você mesmo? Ah, a garota sonhadora que nunca desiste! Você não consegue ver animais nas nuvens, mas pode contemplar as nuvens com o seu pai, um dia. Você não quer?


Ele me puxou de volta e beijou a minha testa. Ele era o cara, o meu cara, amor é pra isso né? Pra deixar a gente melhor.

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