O labirinto

quarta-feira, junho 03, 2015




Dia 03. O labirinto


- Tudo parecia dar errado hoje...

- Por que? - sua testa franziu enquanto ele tentava desvendar o que eu não poderia transformar em palavras.

- Você sabe o quanto pesadelos me assustam, não sabe? - esperei que ele assentisse. - De madrugada acordei assustada por causa de um pesadelo que não lembro, só lembro de dizer para mim mesma: "amanha não faça isso". Só não me pergunte sobre o que era esse conselho porque não tenho a mínima ideia...

- Okay... Você lembra o que a sua mãe te ensinou? - meu pai segurou a minha mão com firmeza.

- Sim, eu repreendi o sonho e consegui dormir, mas o dia foi estranho, sabe? No início não, eu acordei, tomei café da manhã com o senhor, depois fui pra academia e tudo foi bem por lá. Voltei pra casa, tomei banho, almocei e me arrumei pra faculdade. Algo me dizia pra não ir, mas fui mesmo assim. Estava atrasada, por causa da academia, então perdi o meu ônibus. Acabei pegando um outro qualquer que me deixaria na metade do caminho, em um ponto onde teria mais opções para pegar outro ônibus...

- Certo...

- Mas não adiantou, acabei pegando o mesmo ônibus que teria pegado se tivesse ficado no ponto perto daqui de casa. 

- O universo é engraçado, querida. - ele sorriu pra mim.

- Talvez. - sorri pro meu pai também. - Cheguei na faculdade atrasada, corri muito na verdade, e quando estava subindo as escadas do meu prédio avistei o meu professor.

- O da aula de hoje? 

- Sim, ele disse que pouquíssimos alunos haviam ido e que ele decidiu não dar aula esta tarde.

- Você foi lá atoa. - meu pai fez uma careta que teria me feito rir se eu não tivesse algo importante para dizer.

- O universo é engraçado, pai. - ele concordou comigo. - Voltei correndo de novo e peguei outro ônibus, durante toda a viagem pensei: "Hoje não é um dia de sorte pra mim", mas o pensamento mudou depois que andei um pouco após descer do ônibus. Numa esquina perto do Hospital Municipal o trânsito foi parado, havia um daqueles triângulos vermelhos no chão e um ônibus parado logo à frente. Algumas pessoas formavam um círculo em volta de alguém e uma mulher chorava descompensadamente na janela do ônibus. 

- Quem estava no chão? - meu pai mexeu na barba pensativo.

Minhas mãos tremeram enquanto lembrava da cena e senti dores surgindo no meu estômago.

- Uma senhora estava deitada no chão, ao lado dela havia uma poça de sangue e a cabeça dela estava toda suja do mesmo líquido vermelho. Os cabelos brancos sumiram naquela mistura de sangue com carne rosa... Ela estava consciente e queria levantar, foi quando pensei o quanto meu dia não havia sido ruim, o dela estava muito pior do que o meu. E se nunca fiz isso antes, o fiz naquela hora, foi impossível não ver o quanto um ser humano é frágil. Aquela mulher sumiu ao lado do ônibus pai, ela parecia tão frágil, tão pequena, mas tão forte ao mesmo tempo sabe? Um homem ao meu lado disse que a culpa do acidente havia sido dela, porque ela atravessou a rua sem olhar... Ela estava com vergonha e queria levantar, queria parar aquele espetáculo todo.

- Ah querida, uma vez concluí que a vida era muito parecida com um labirinto, nós a começamos achando que seremos capazes de encontrar a saída, se escolhermos o caminho certo seremos conduzidos para um bom fim, se errarmos ficaremos presos para sempre. Só que as nossas escolhas não são certeiras, elas não possuem GPS nem bola de cristal, nós estamos à mercê do erro assim como do acerto. Quando escolhemos uma nova direção no labirinto não teremos certeza do que encontraremos à frente. 

- Sabe pai, acho que hoje foi meu dia de sorte. - enrolei meu braço no do meu pai e deitei minha cabeça no ombro dele. 

- Por que, querida? - meu pai beijou a minha testa e senti quando um sorriso se formou em seus lábios.

- Porque o caminho que escolhi hoje me permitiu estar sentada nesta varanda com o senhor, sentindo esta brisa gelada entrar pelos furinhos das minhas meias e podendo ver uma lua redonda e brilhante lá no céu. E espero que o universo seja mais engraçado para aquela senhora. 

- Eu também, querida. Eu também.  

***

Este é o 3º texto do projeto Poem a Day, que consiste escrever um texto, conto, crônica, etc, todos os dias inspirado em temas pré-selecionados pela criadora do Projeto Vanessa Chanice. Esta é a terceira edição do projeto, que visa aguçar o amor pela escrita e melhorar quem tanto ama esta arte.  

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