+QP | Faz frio aqui dentro

domingo, setembro 27, 2015



O vento varre tudo lá fora, alguns galhos de um velho pé de salgueiro se esfregam violentamente nas paredes de madeira da cabana, que agora parecem tão frágeis. O mar também está agitado, posso ver pelos vidros da janela da cozinha e alguns relâmpagos e trovões cortam o céu. Talvez eu devesse ter ficado em casa, assistindo uma maratona no Netflix ou lendo algum livro. Bendita hora que decidi ouvir a minha mãe e passar alguns dias na velha cabana dos meus avós na praia... Mas ela não teria desistido com facilidade:

- Vai fazer bem pra você, meu bem. Se afastar dessas buzinas, dos carros de som, dos foguetes que soltam durante um jogo no domingo... 

Tudo isso não passava de pretexto. Minha mãe só queria que eu começasse de novo, que eu superasse a crise de ansiedade que vinha enfrentando nos últimos meses, que voltasse a conseguir me virar depois da minha série de crises de pânico. E bem, eu também queria deixar isso tudo para trás, então decidi ouvi-la, mas as coisas não pareciam estar dando muito certo. Ficar sozinha numa cabana não significava que eu teria grandes revelações, que me descobriria e que encontraria um novo sentido para vida. Não, nada disso aconteceu nos últimos cinco dias desde que cheguei. 

E agora tenho que me sentar na salinha minúscula, encolhida no sofá, com uma xícara de chocolate quente nas mãos. Após dar um gole percebo que o chocolate ainda está muito quente, embora já esteja esperando que esfrie há bastante tempo. Coloco a xícara na mesa de centro e volto a me recolher no sofá. Os barulhos dos trovões soam mais alto e mais perto. Meu coração estremece. Eles são tão assombrosos quanto os carros nas ruas, quanto as pessoas que passavam por mim às pressas, quanto a pilha de problemas que me esperavam em casa. 

Por que eu fiquei... assim? Bem, eu levei um pé na bunda, foi isso. Deveria ser a coisa mais normal do mundo. Minhas amigas me disseram que eu deveria esquecer aquilo, segundo elas eu era uma mulher incrível, não ficaria solteira por muito tempo. Bastava aplicar uma nova maquiagem, vestir uma roupa bonita e comprar ingressos para um show. Seguir a vida. Mas não era tão simples assim. Minha mente não queria esquecer o meu namorado, quer dizer meu ex. E mais ainda, vê-lo beijando a minha (ex) melhor amiga também era algo difícil de superar. E depois disso me tornei fraca para realizar qualquer coisa. Esse é meu drama, mas sei que existem piores por aí. Me encolho mais no sofá. Cubro a cabeça na vã tentativa de abafar o som dos trovões. 

"A culpa é sua...", minha cabeça começa seu monólogo e sinto vontade de batê-la na paredes, mas talvez ela tenha razão, deve haver algum problema comigo. Algum defeito, alguma falha que ainda não percebi e que ele acabou percebendo e fugindo antes que fosse tarde. Levanto e caminho até a janela da cozinha. O mar parece um pouco convidativo. E se eu acabasse com isso? Não precisaria fazer com que meus pais sofressem nem que gastassem dinheiro com Rivotril! E minha mãe não precisaria mais ouvir que eu era tão nova para estar tão deprimida, tão desiludida da vida. As pessoas parecem ter aprendido a se defender das decepções da vida, parece que elas se armaram contra as desilusões, mas eu não. 

Alguém me disse que meu erro foi acreditar no amor... Talvez tenha sido, talvez ele não exista. Desenho um coração no vidro da janela, no mesmo lugar que ele desenhou pra mim na primeira vez que veio comigo aqui, há dois anos, nas férias de verão. Ele sussurrou que me amava e que queria casar comigo. A lembrança faz com que uma lágrima solitária escorra por minha bochecha. 

Talvez meu erro não tenha sido acreditar no amor, talvez tenha sido a intensidade somada ao fato daquela não ser a minha pessoa. Dizem que somos metades de laranja, não é? Bem, talvez eu tenha me unido com a metade errada, dei toda minha doçura para a metade que não era minha e agora estava azeda. Tem como ser adoçada de novo? Não tenho certeza se quero saber a resposta. 

Encosto a cabeça no vidro frio da janela, fecho os olhos e ouço as gotas de chuva que batem na superfície. Fico assim por um longo tempo, até que sinto algo mais forte bater na janela. Algo como uma mão. Abro os olhos sobressaltada, meu coração pulando vinte vezes mais rápido. Não lido bem com sustos. E lá estava ele. Um homem de pele morena, cabeça coberta pelo capuz da sua blusa preta de frio, os olhos preocupados, mas com as lábios formando um sorriso. Um sorriso que eu adorava ver. Ele não era a metade da minha laranja, mas se amizade fosse comparada em frutas, nós seríamos como um morango, doce e azedo ao mesmo tempo. Sorri pra ele e percebi que meu coração tinha se acalmado um pouco. Ele acenou para a porta e caminhei cautelosamente até lá. Precisava me estabilizar do susto e da melancolia, se não a porta jamais seria aberta. 

Depois de alguns minutos abri a porta e fui recebida por ventos massacrantes e areia, areia por todo lado. Fiquei um pouco confusa e foi Gabriel quem fechou a porta. 

- Achei que você ia me sacanear e não abrir a porta. - sua voz soou brincalhona, como sempre. 

- O que você está fazendo aqui? - falo forçando as paredes da minha garganta a permanecerem abertas. A vontade delas é se fechar, me sufocar e me fazer chorar. 

- Sua mãe me disse que você estava aqui, não achei bom você ficar aqui sozinha nessa tempestade.

- Não preciso de babar. - minha voz sai seca e mal educada. 

- Quem disse que eu vim pra ser sua babá? Não vim cuidar de você, vim passar tempo com você. Tempestades são mais divertidas com amigos! - ele caminha até a mesa e coloca algumas sacolas, que até agora eu não tinha reparado, em cima do móvel. - Lembra o que fazíamos nas tempestades de verão? 

- Depois que éramos arrastados pela minha avó da água? - Gabriel acena positivamente. - Nós jogávamos, ríamos feito bobos e comíamos sem parar.

- Pois é! Então eu trouxe algumas coisas do supermercado, Banco Imobiliário, porque vamos poder jogar o suficiente para comer tudo o que eu comprei e posso te contar as últimas burrices que eu fiz, acho que você vai rir bastante! - ele não olha pra mim, está ocupado tirando das sacolas tudo o que trouxe e não percebe que já estou rindo. Pela primeira vez em meses alguém está lidando comigo da forma mais natural possível, como se nada tivesse acontecido. Como se eu não fosse a mais nova maluca do pedaço. Talvez isso faça bem pra mim. 

- Sabe, acho que sou que tenho idiotices para contar... - mal dou por mim e já estou contando tudo a ele. Parece que consegui realizar um dos maiores desafios impostos por minha psicóloga: voltar a confiar em alguém. 

O mar deixa de ser tão convidativo. As minhas risadas misturadas com as de Gabriel são mais charmosas agora e os trovões não me dão mais tanto medo. Talvez tudo o que eu precise seja apostar na vida de novo, dar uma chance para ela e deixar que ela me surpreenda. Além dos lobos, há cordeiros no caminho. 


***
Tema: Um dia chuvoso em uma cabana.

Este texto faz parte do Projeto Mais que Palavras, um grupo que se reúne no Facebook e traz propostas mensais para textos, contos, crônicas, etc., com a missão de tirar nós, (jovens que sonham em ser escritores), de sua zona de conforto e por em prática a atividade que tanto amam. Para saber mais sobre o projeto basta clicar na imagem abaixo, você será redirecionado para o grupo do projeto. 

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6 Comments

  1. Texto incrível, como sempre, Thaís *-*
    É muito difícil voltar a acreditar de novo quando passamos por essas decepções, mas parece que foi pra isso que Deus nos deu esses anjos, que chamamos de amigos <3

    Beijos
    www.colecionandoprimaveras.com.br

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    1. Obrigada, Ellem ><
      Verdade, Deus é tão cuidadoso que naqueles momentos extremos que precisamos muito de um ombro amigo Ele acaba nos enviando o certo ou então Ele nos faz sentir Sua própria presença!
      Obrigada pela visita, princesa!
      Beijos!

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  2. Sempre quando se fala de amor recorremos as mágoas que o mesmo acaba nos causando, que por acaso, são profundas e criam barreiras para um novo relacionamento. Amar é algo simples e ao mesmo tempo complicado. Acredito que existe a pessoa certa, mas ainda tenho a concepção de que ela pode/deve me fazer sofrer, pois gera crescimento, certo? Porém, também tenho a consciência de que antes de me entregar o amor me respondo uma própria questão: Quem me completa? Eu mesma e somado ao amor de outra pessoa se transborda como uma caneca de chocolate quente, reconfortante por seu calor e gosto. Sei que é uma história, mas vejo exemplificado o cotidiano amoroso das pessoas. Não apenas a escassa falta de confiança, mas a entrega a depressão e falta de se admitir que não se amou primeiro. Fico feliz, pela personagem ter encontrado um amigo que seja o chocolate quente para ela: puro conforto.

    Parabéns pela escrita!

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    1. Pois é Débora, o amor é simples, mas até no simples encontramos complexidades. Somos falhos, então todos estamos propensos ao erro, até a pessoa que mais esperar em Deus, que tiver a maior fé que o tal cara certo vai chegar, vai sofrer, porque ele será humano, assim como ela... Mas se ambos colocarem Deus como o centro de tudo, eles saberão lidar com isso e saberão buscar por melhorias, por curas e para serem o chocolate quente um do outro rs
      O que mais se vê por aí são pessoas que colocam o amor por outra pessoa na frente do seu amor próprio, e cara isso tá muito errado, porque essa pessoa não estará pronta para sofrer nem para viver sem essa pessoa. A Bíblia diz que precisamos amar ao próximo como a nós mesmos, portanto amar a si mesmo é fundamental. Antes de ama qualquer outra pessoa, precisamos desenvolver um relacionamento com o nosso eu. Se nós nos amamos, temos confiança em nós mesmo, estaremos um pouquinho mais prontas para lidar com situações assim.
      Obrigada *-*

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  3. Caramba, que texto incrível!
    Sério. Me prendeu de um jeito que só os bons livros conseguem!
    O que vai acontecer depois com a protagonista e o Gabriel? E qual o nome dela? Tem continuação?
    Conheci seu blog agora e fiquei sinceramente encantada.

    Nayandra,
    www.ultimobiscoito.com

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    1. Oi Nayandra, fiquei muito feliz com a sua empolgação rsrs
      Então, era apenas um texto para participar de um projeto, fiz a personagem sem nome para que outras garotas na mesma situação pudessem se identificar com facilidade... Ainda não planejei uma continuação, mas posso trabalhar em algo. Fica de olho no blog, porque pode aparecer por aqui, okay? *-*
      Fico muito feliz por ter gostado da minha escrita, de verdade ><
      Obrigada pela visita! Beijos!

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