[642 coisas] Um coração partido e um velho que alimentava pássaros




Petrópolis tinha sido a cidade escolhida para comemorar dois anos de namoro, o que eu não sabia era que meu namorado tinha convidado seus melhores amigos para vir junto e que o domingo que era pra ser nosso tinha se tornado deles. Muita coisa havia mudado desde o dia que ele aparecera no meu trabalho com um buquê de flores e uma aliança prateada, todo o romantismo havia caído na comodidade e como tinha acabado de constatar ele preferia os amigos a estar comigo. E nem era drama meu, porque não lá ciumenta, mas daí trazer os amigos para uma comemoração de namoro?

Ele estava conhecendo uma cervejaria famosa, outro detalhe que surgiu há algumas semanas, ele me disse que estava cansado da vida certinha que a igreja exigia e que via Jesus como um cara mais liberal, talvez este tenha sido o sinal pra eu cair fora, e embora minha mente tenha trabalhado essa ideia nas últimas semanas, meu coração não deixou. Agora ele estava lá, conhecendo a história da cerveja e provavelmente experimentando variedades enquanto eu estava sentada no banco de um parque da cidade jogando pipocas para pombas. Que coisa decadente! Quem deveria estar alimentando os pássaros deveria ser um velhinho e não eu!   

Não demorou para que um velhinho aparecesse e sentasse ao meu lado. De canto de olho pude vê-lo tirar um saquinho de papel do bolso cheio de pequenos pedacinhos de pão. Ele começou a jogar os pãezinhos e sorriu pra mim. Sorri de volta, mesmo sem vontade. 

- Você veio pra cesta da cerveja, moça? - o senhor perguntou simpático. 

- Sim. - respondi baixinho, talvez fosse melhor levantar do banco com a desculpa de ir conhecer a cidade, não estava em clima para conversas.

- Sabe, eu trabalhei naquela cervejaria, mas não era o que eu gostava de fazer... - ele olhou para além dos pássaros, como se estivesse diante de uma porta para o seu passado. - Tudo o que Clara e eu queríamos era abrir nossa própria lojinha de doces. Já falei que Clara, minha esposa, é uma excelente doceira? - ele sorriu, com ar de garoto apaixonado. - Depois que juntei um dinheiro que dava pra abrir nossa lojinha deu os pés da fabrica e nunca mais voltei lá. Toda vez que eu vendia um doce ou ajudava Clara a lavar as panelas, me lembrava de quanto tempo perdi naquelas máquinas de cerveja. Sabe menina, quando a gente fica fazendo algo que não gosta a gente deixa a vida ir embora, ela está passando e você está jogando ela fora. 

Pensei na minha própria vida. O que eu estava fazendo? Trabalhando durante o dia e estudando à noite, mas eu gostava disso, porque já estava colocando em prática o que aprendia na faculdade... Mas durante meu tempo livre eu me dedicava há alguém que não me dedicava nada de volta... Será que estava valendo a pena?

- A gente tem que vigiar, moça. A vida passa muito depressa. A minha Clara morreu ano passado, mas ainda venho aqui no parque, porque aqui era nosso lugar favorito e ainda posso ver o sorriso dela enquanto alimento os pássaros. Foi a Clara que me ensinou a aproveitar a vida e é por isso que continuo fazendo o que me faz feliz até o dia que puder abraçar a Clara de novo. 

Sorri e desejei ao senhor que ele continuasse bem até se encontrar com a dona Clara. Deixei o saquinho com o resto das pipocas nas mãos dele e após ele acenar para mim corri até onde a rodoviária, que tinha visto enquanto caminhava pela cidade. Um ônibus partiria para o Rio de Janeiro em menos de 30 minutos e ainda tinha algumas poltronas disponíveis. Enquanto esperava comprei um chocolate quente, na tentativa de aquecer os 13º C que penetravam o meu sobretudo. Quando sentei na poltrona do ônibus e vi a cidade imperial sendo deixada para trás respirei fundo e me senti algumas anos mais novo. Peguei meu celular e enviei uma mensagem par Guilherme: 

Fui embora, nos dois sentidos.

A vida passava depressa demais e as únicas cenas que eu queria ver correndo seriam as paisagens que cruzaria em passeios de carro. A minha história eu gostaria de ver em tempo real e saber que no fim cada dia valeu a pena. 

***

Este texto faz parte do projeto 642 coisas sobre as quais escrever e o tema que deu origem ao texto é o 48 (Nunca subestime a vida dos velhos sentados nos bancos dos parques).



5 comentários:

  1. Que texto lindo, quanta sabedoria em poucas palavras *---*
    A vida passa mesmo muito rápido, e deve ser muito ruim chegar ao final dela pensando que deveria ter feito tudo diferente :/

    Beijos
    Colecionando Primaveras

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    1. Sim Ellem, por incrível que pareça eu penso muito nisso e sempre tento me manter correndo atrás daquilo que acredito que valha a pena pra ser uma velhinha que não se arrependa da vida rs
      Obrigada pelo carinho, sua linda!
      Beijos!

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  2. Ooi, Thais! Que texto maravilhoso :3 Verdade, p tempo é algo precioso e que se a gente gastar com coisas que não nos fazem crescer, é a mesma coisa que dizer que está corre do uma maratona, mas seus pés não saem do lugar. Muito bom! Boa reflexão para todos ;)
    http://thoughtsandadventuresruhhbelle.blogspot.com.br/

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    1. Oi Ru! Verdade, correr sem sair do lugar... Vou guardar essa reflexão para um próximo texto :D
      Obrigada pela visita! Beijinhos!

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  3. Eita moça, que texto intenso. Você escreve bem demais, já sabe, né? Essa última frase foi impactante, embora acho que não foi legal nem gentil da parte dela terminar dessa forma, sabe? Mesmo que estivesse insatisfeita, o cara merecia uma explicação, algo cara a cara (imagina se fosse o contrário?). Mas isso não tem nada a ver contigo, hein kk e sim com a moça do texto. De qualquer forma, ficou muito bom. Essas pessoas que passam por acaso na nossa vida, como esse senhor, deixam lições valiosas que a gente nunca mais esquece e eles nem fazem ideias. Um beijo!!!

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