Deus me fez flor

terça-feira, novembro 03, 2015





"Sou uma flor de Sarom, um lírio dos vales." 
(Cântico dos Cânticos 2:1)

De terça à sexta cruzo um bairro vizinho ao meu para chegar até ao ponto de ônibus. É uma caminhada de menos de 10 minutos, com um pequeno morro no caminho, que mesmo pequeno é capaz de tirar o fôlego quando saio de casa atrasada. Mas entre as ruas silenciosas sou recompensada com um trecho em que as calçadas foram enfeitadas com algumas árvores e ramos de flores, que mesmo nos dias mais corridos me fazem parar só pra ficar olhando o novo botão amarelo que surgiu ou as flores brancas que caíram das árvores e cobrem com doçura a calçada.    

Entre os ramos de flores, se destacam algumas com botões bem pequenininhos que nascem em caules cobertos por espinhos. Sempre que olho para elas fico encantada em como um "pé" tão grotesco, com seus espinhos pontudos e feiosos, podem dar espaço para flores tão delicadas. E essas flores (que infelizmente não sei o nome) sempre me fazem lembrar que a vida é justamente assim, em meio aos espinhos muitas pessoas se descobrem como lindas flores. 

Quando você olha para as provações da sua vida, você se vê sendo transformada em espinho ou em uma linda rosa? Quando estamos no meio do vendaval, levando um 7x1 por dia, é muito difícil imaginar que tais situações vão nos tornar pessoas melhores. Por exemplo, uma pessoa que se descobre adoentada não conclui de imediato que Deus pode usar aquele momento de dor para mudar a sua vida. Mas Deus usa e são essas lutas diárias que vão nos lapidando na joia preciosa que Deus nos criou para ser. De certa forma, os nossos períodos de luta são como ir a escola, se nos equiparmos com boas ferramentas (fé, oração, obediência a Deus...) poderemos vencer as provações e no final, quem sabe não nos descobrimos flor? 

Vou contar um exemplo pessoal de forma bem breve. Na minha família nós vivemos problemas por muito tempo, na verdade, ao olhar para trás é difícil encontrar um momento se quer em que estivéssemos em inteira calmaria. Lidamos com muitos obstáculos e um dos mais difíceis pra mim até hoje é a minha relação com o meu pai. Ele cresceu em um lar em que os pais, embora amassem muitos os filhos, não tinham costume de dizer e de demostrar simplesmente o amor, sabe? Embora seja visível que se importem uns com os outros, meu pai e seus irmãos, tem uma dificuldade para abraçar, para dizer "eu te amo", ou para simplesmente desenvolver uma amizade com os filhos. Há no meu pai uma armadura que o impede de ser carinhoso e mais participativo na minha vida, e isso sempre mexeu muito comigo.

Desde que aprendi a refletir sobre as coisas descobri que não aceitava esse comportamento dele, tudo o que eu queria é que nós nos tornássemos mais íntimos, mais amigos. Não queria apenas que ele estivesse em casa, que cuidasse de mim financeiramente, queria que ele mostrasse nos detalhes mais simples que me amava. E mesmo tendo dito isso pra ele algumas vezes, a coisa não mudou. Meu pai me disse que ele não poderia mudar, que ser assim era como ele tinha sido aprendido a ser. Quando ele me disse isso, fiquei decepcionada, não estava pedindo nada demais, só mais carinho, mais atenção, mas ele não sabia como me dar. 

Demorei um tempo para compreender que o comportamento do meu pai era um reflexo do que ele próprio tinha vivido, que ele só trata a minha irmã e eu desta forma, porque ele foi tratado assim, de forma distante e sem muita demonstração de sentimento. Não é porque ele não nos ama, ele ama e muito, só não sabe como mostrar isso pra gente. Quando comecei a olhar a coisa por esse anglo, se tornou um pouco mais fácil entender o comportamento do meu pai, e além disso, acabei aprendendo outra coisa: se meu pai não tivesse se comportado assim talvez eu nunca tivesse olhado para Deus como Pai e poderia ter levado muito mais tempo para entender os planos que Ele tem pra mim.

Foi exatamente a falta de um pai carinhoso e mais atencioso, que me fez ver em Deus um Pai, que me fez querer tê-lo como melhor amigo e viver com Ele para sempre. Foi por isso que me descobri como princesa e que senti necessidade de dizer a outras garotas que elas são também. Foi aí, que meus espinhos começaram a me transformar em flor. 

Infelizmente, meu pai e eu ainda somos desconhecidos um para o outro em muita coisa, estamos presentes cotidianamente na vida do outro, mas ainda assim somos estranhos. Tal situação poderia ter me feito ser uma pessoa completamente diferente do que sou hoje, poderia ter crescido revoltada por causa disso, talvez odiar meu pai e olhar para a situação sempre com olhos de criança, podia transformar os pequenos espinhos que me machucaram em espinhos ainda maiores. Mas Deus apareceu pra mim como o Pai que eu tanto precisava e usou alguém para me dizer que Ele era meu melhor amigo. Foi Ele, com seu amor profundo e acolhedor que vem me transformando em flor.

É com esta pequena experiência que aprendi que nem todo espinho tem a capacidade de me fazer espinho, se eu souber enfrentar a situação, posso fazer com que algo ruim seja algo bom. Dos caules espinhosos podem nascer lindas flores. 

Meu conselho hoje é que você, que tem enfrentado tantos espinhos, olhe para eles não como uma afronta, como uma batalha perdido, mas como produtores de flores. Peça ajuda e orientação a Deus para fazer das suas batalhas degraus de uma escada que te conduzirá para ser a filha que Deus te chamou para ser. Lembre-se de homens e mulheres bíblicos, José e Ester, por exemplo, o rapaz foi traído pelos de sua própria casa e ainda assim não deixou que os sonhos de Deus morressem; Ester era órfã e estrangeira em uma cidade que odiava o povo dela, mas ela não deixou que tais circunstâncias determinassem quem ela iria ser, Ester deixou Deus na frente de tudo e foi corajosa, na hora certa Deus a colocou como rainha e a moça salvou o seu povo! 

Quando os espinhos apertarem demais a sua pele ou te encurralarem contra a parede, lembre-se das roseiras, elas brotam em caules brutos, que machucam, que deixam marcas, mas que não a impedem de ser a mais linda rosa de um jardim. Deus te chamou para ser flor, menina. Não aceite ser espinho.   

  

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3 Comments

  1. Essa situação se repete comigo mas em relação a minha mãe, temos muitas dificuldades de nos relacionar, acredito que pelo fato de ser criada pela minha avó, apesar de estarmos perto uma da outra, ao mesmo tempo estamos muito distantes, como se houvesse uma barreira entre a gente sabe, ela nunca demostrou muito carinho comigo, nunca se quer disse eu te amo, queria muito que esse mudasse que fosse próximas, vejo minhas amigas com um grande companheirismo com suas mães, queria ter o mesmo com a minha, que fosses além de mãe e filha, amigas, companheiras uma da outra, confidentes.Seu post me fez refletir muito.

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  2. uaaaaaal lindo texto, Deus a abençoe princesa.

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  3. Thais, que palavra abençoada! Só estou vendo suas pastagens recentes agora, porque estava saboreando suas pastagens antigas. Estou amando ler seus textos. Deus te abencoe! ♡

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