[+QP] A garota do cinema

sábado, janeiro 30, 2016



Há uma semana estava sentado diante de um computador, uma caixa de dinheiro e um vidro que me separava do resto do mundo. Preso em uma sala minúscula, que só era habitável por causa do ar condicionado que vinha se arrastando da cantina do cinema, o tempo só corria quando o horário das sessões se aproximava e a fila se formava, me obrigando a contar trocos e imprimir ingressos corretos, o mais rápido possível. O cheiro da manteiga, o barulho do milho se transformando em pipoca e o reflexo da máquina de refrigerante na tela do meu computador faziam meu estômago dar nó e a vontade de ir para casa aumentar, mas sem aquele emprego não teria dinheiro o suficiente para a faculdade tão cedo e continuaria a ouvir o meu pai dizendo que todos os meus irmãos cresceram, exceto eu.

Estava entediado, chutando o piso com o bico do tênis e relendo pela milésima vez as sinopses dos filmes em cartaz, quando uma voz simpática chamou minha atenção com um simples “boa noite”. Fitei seus olhos castanhos, redondos como bolas de gude, com cílios grandes também, que exalavam expectativa e curiosidade.

– Ainda tem ingresso para “Antes da Meia-Noite”?

– Todos os ingressos são para antes da meia-noite. – sorri para ela. E ela sorriu de volta. Milagre, minhas piadas são sempre detestáveis.

– Não é isso. – ela ainda sorria –, ainda tem?

– Tem sim! – ela suspirou de alívio e fiquei curioso em por que aquele filme era tão especial para ela. – Quantos vai querer?

– Um só! – ela cantarolou enquanto me entregou o dinheiro e sua carteirinha de estudante.

Luara. Este era o nome dela. Como a fila crescia não pude fazer uma piada idiota se quer. Ela agradeceu e se foi. Parecia uma garota tímida e decidida, mas o que adiantava continuar imaginando características para ela? Éramos estranhos e assim continuaria.

Desde criança rostos parecem ímãs para mim, alguns simplesmente se destacam na multidão e sobrevoam minha cabeça de tempos em tempos, por isso quando a garota dos olhos grandes e castanhos voltou no mês seguinte não precisei de muito para reconhecê-la. E o mesmo aconteceu nos meses seguintes, algumas vezes mais, outras menos. Sozinha ou acompanhada. Animada ou tristonha, até mesmo apaixonada. Com o tempo, mesmo trocando frases curtas e obvias entre um bilheteiro e uma cliente, seu sorriso conseguia fazer o meu estômago ter seus rotineiros nós desfeitos e feitos de novo, de um jeito bem mais agradável. Seu rosto invadia minha mente enquanto tomava café em uma cafeteria que ficava em um corredor menos movimentado do shopping. Seus desejos de que minha tarde ou noite fossem boas soavam tão sinceros que defini-la como simpática não era difícil.

Quando vinha acompanhada, ela e os amigos chegavam mais cedo e passavam um bom tempo conversando. Ela parecia ter sempre uma história para contar, fazia os amigos rirem e ela gargalhava junto até ter lágrimas nos olhos. Sozinha, ela se entretinha com música e livros. E foi observando-a passar as páginas dos seus livros tão rapidamente, tão concentrada na história e desligada do mundo, enquanto arrumava a franja sem parar e tomava sempre o mesmo sabor de Milk-shake que descobri que segurar as mãos dela enquanto caminhávamos pelo shopping era tudo que queria!

Os meses foram passando, consegui o suficiente para as mensalidades dos dois primeiros  semestres, poderia procurar um novo emprego e começar a estudar a noite, mas agora a manteiga não mexia com meu estômago nem o barulho da pipoca incomodava, queria continuar naquela salinha, controlando ingressos pelo computador e vendo a diversão das pessoas pelo vidro. Além da morena de olhos grandes claro, a melhor estreia do mês! Só que três anos correram e enquanto minha imaginação criava centenas de cenas em que eu a convidava para tomar um café, ela me via apenas como o bilheteiro, o cara atrás do computador que lhe daria os ingressos para a sua diversão.

Ficar assistindo a vida passar não dava, talvez estivesse certo desde o início: não passaríamos de estranhos! Acabei encontrando um estágio pela faculdade e começaria dali duas semanas. Iria trabalhar apenas mais uma semana e pronto, adeus cinema!

Sem nada a perder digitei o nome completo dela – que ainda sabia de cor – no Facebook e passando por uma foto e outra, uma acabou se destacando, havia sido publicada há pouco mais de três semanas. A morena do sorriso simpático estava ladeada por outras duas mulheres, e as três usavam uma blusa vermelha, com o nome de uma loja de sapatos em dourado no cantinho da blusa.

– Ainda babando nessa garota, Gu? – Carlos, aproveitando que a cantina estava vazia enfiou a cara na porta e bisbilhotou o computador.

– Que tal ir checar se as suas pipocas não estão queimando? – falei fingindo mau humor. 

– As suas pipocas que vão sair do ponto se você não tomar uma iniciativa logo! – Carlos disse enquanto voltava para a cantina. 

Ele tinha razão. Quando foi a última vez que convidei uma garota para sair? Levar Gabi ao cinema ou a pizzaria não contava, nós éramos amigos desde que usávamos fraldas. Então, minha resposta permanece como nunca. Não ia perder muita coisa se convidasse alguém pela primeira vez.

Minimizei o sistema do cinema no computador, torcendo para que a gerente não aparecesse naquele momento e adiantasse minha saída do trabalho com justa causa ainda por cima, e abri o Google. Digitei o nome da loja e esperei pelos resultados. Havia dois endereços, duas lojas iguais na mesma cidade. Tinha 50% de chance de acertar a loja. Durante meu intervalo, bem no meio da tarde, desci ao primeiro andar do shopping e entrei em uma floricultura, mais difícil do que decidir enviar um convite, foi escolher as flores. Indeciso, segui o conselho “certeiro” da vendedora e comprei um buquê de rosas vermelhas. Era tudo ou nada.

Escrevi em um cartão:
Que tal um café?
Antes da meia-noite, claro!
Estarei no mesmo lugar de sempre.
- Do bilheteiro acompanhado das piadas idiotas.

Juro que passei as horas seguintes ansioso, sempre fui o cara quieto, que sem tomar iniciativa não tinha histórias amorosas para contar. Esse seria o primeiro e grande toco da minha vida! Daqui alguns meses, antes de uma prova de cálculo ou enquanto roubava as batatas do lanche da Gabi, contaria o quanto gastei com as rosas e como estava apaixonado por uma garota que não tinha conversado por mais que dois minutos em um único dia. Gargalharíamos do quanto fui um garoto idiota!

– Boa noite! – fui surpreendido pela voz simpática de novo e senti um nó se formando, desta vez no coração. Será que ela seria tão cruel e me daria um toco pessoalmente?

Tirei os olhos do computador e encontrei bem encostados ao vidro os grandes olhos castanhos, eles sorriam tanto quanto os lábios.

– Um café antes da meia-noite, por favor? – ela disse enquanto erguia o buquê de rosas até o nariz e aspirava o perfume.

Desta vez foi do meu peito que veio a inspirada e expirada profunda.

– Claro, senhorita! Espere só um minutinho.

Só precisei de uma nota de 50,00 para convencer Carlos a ficar no meu lugar, dobrando seu turno. Joguei o avental sei lá aonde, peguei minha mochila e deixei o cinema. Ela estava sentada em um das mesinhas da praça de alimentação, os olhos que até então pareciam enxergar algo de mágico nas rosas encontrou os meus e tive certeza do quanto, às vezes, valia a pena se arriscar.

– Luara, que prazer vê-la aqui! – apertei a mão dela e beijei sua bochecha.

– Fui surpreendida pelas rosas, Gustavo! – ela novamente as cheirou. Gustavo? Espera aí! Como ela sabia meu nome? – O crachá, sempre esteve aí! – ela respondeu notando a confusão que acontecia internamente, mas que meu rosto fez questão de revelar.

O crachá sempre esteve ali, menos agora! Ela tinha me visto! Nem o vidro, o computador ou as conversas curtas por causa da fila enorme tinham a impedido de me ver.

Entrelaçamos os dedos e caminhamos em direção a cafeteria. 

***

Tema: "Era só um trabalho. Três anos a assistindo por aquela máquina. E talvez uma parte de mim tenha se apaixonado por ela, porque eu queria que ela soubesse quem eu era. Até que ela soube."

Confira textos de outras participantes:


Este texto faz parte do Projeto Mais que Palavras, um grupo que se reúne no Facebook e traz propostas mensais para textos, contos, crônicas, etc., com a missão de tirar nós, (jovens que sonham em ser escritores), de sua zona de conforto e por em prática a atividade que tanto amamos. Para saber mais sobre o projeto basta clicar na imagem abaixo, você será redirecionado para o grupo do projeto.

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4 Comments

  1. Gostei muito do texto!! que Deus continue te abençoando!!! bjs!!!

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    1. Amém, princesa! *-*
      Fico feliz por ter gostado ♥
      Deus te abençoe e volte sempre!

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  2. Ah, que fofo! Amei, Thaís :3
    Achei tão puro e envolvente. Achei até que não teria um final feliz, mas tratando de você... Claro que teria! O amor exposto no seu texto é bem visível e ainda tem o fato de você ter criado um conto bem bacana para o tema do mês. Muito bem pensado e trabalhado! Parabéns mesmo <3
    Beeijos, linda! Que o ES continue a te inspirar :D

    http://www.thoughtsandadventures.com.br/

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    1. Por que não escrever finais feliz? Há tão poucos na vida real ;/ Thaís sendo dramática rs É só que, já que posso criar histórias gosto que elas levem coisas boas, esperança e inspira as pessoas a buscarem o melhor :D
      Esse texto deu um trabalhinho mesmo rsrs, mas com todos esses elogios percebo que valeu a pena! Fico muuuuito feliz por você ter gostado, Ru *-*
      Amém! Que Deus venha a nos abençoar e ser nossa fonte de inspiração!
      Volte sempre! beijo, beijo!

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