[642 coisas] Quando coisas simples se tornam extraordinárias




A cidade, que poderia ser tida como pequena há uns 50 anos atrás, vinha crescendo com certa urgência. Construtoras estavam constantemente comprando terrenos aqui e ali para construírem seus condomínios minúsculos e novos prédios comerciais. Os antigos shoppings estavam sendo reformados e o pequeno centro comercial se expandia por novas ruas. Tudo parecia mudar, exceto uma antiga fábrica de café que ocupava uma significativa extensão da avenida principal da cidade. 

Seus tijolos vermelhos permaneciam os mesmos, assim como seus telhados triangulares e a Kombi, que Deus sabe como e por que foi mantida entre dois dos telhados. Uma característica peculiar da empresa. Convenhamos que há propagandas mais fáceis de serem feitas. E embora aquele automóvel costumasse intrigá-la quando criança, o que ela mais amava naquela velha fábrica de café era seu campo coberto por grama sempre bem verde e podada, e por uma árvore grande, com galhos largos e cumpridos, que pareciam estar sempre enfeitados com cipó, ou talvez fossem só folhas antigas que caíam dos galhos mais altos. A garota não poderia tirar essa dúvida, porque o acesso a árvore era restrito e havia boatos de que a área da fábrica havia sido vendida para uma construtora que transformaria o espaço em um grande shopping e condomínio. Ou seria hotel? Ela só torcia para que uma alma sensata percebesse que deixar a árvore no lugar dela, por direito, fosse o melhor a ser feito.

Eventualmente, enquanto passava em frente a antiquada fábrica, ela imaginava o que poderia fazer com a árvore se tivesse acesso a ela. Quase sempre era arrastada do mundo real para o faz de conta que ela tecia com tanta destreza em sua imaginação. Só que naquela noite ela não estava sozinha e se se fechasse para o mundo como costumava fazer, alguém a acharia estranha. O que não estava muito longe de ser verdade.

 Terra chamando Helena. Terra chamando Helena! — uma voz grossa e dedos sendo estalados diante do seu rosto a trouxeram de volta. Era Guilherme. — Acho que nós falamos tanto sobre "Lucas Silva e Silva", que você se inspirou.

— Sorry! — ela mordeu o lábio inferior, rindo. 

— Sem problemas! Só gostaria de saber o que tem no estacionamento que é mais interessante do que eu. — sua voz soou como a de um garotinho de cinco anos, triste. 

Eles estavam deixando a praça de alimentação de um shopping que ficava bem em frente a fábrica de café. "De quantos shoppings essa cidade precisa?" Helena sempre se perguntava.  Mesmo em meio a escuridão da noite e pela falta de iluminação onde a velha árvore estava, a garota ainda podia ser envolvida por ela e seus delicados cipós. 

— Está vendo aquela árvore? — eles estavam deixando o estacionamento, a pé, e embora ainda houvesse a avenida, as calçadas, uma cerca e o gramado entre eles, os faróis dos carros permitiam que ela fosse vista. — Estou esperando que ela me convide pra sair.

Guilherme riu.

— Ela tem lá seu charme... Só não credito que experiente como ela deve ser não tenha tomado coragem ainda. 

— Pois é! Ela me deixa frustrada às vezes. 

Helena acabou contando sobre seu amor platônico para Guilherme, saindo do roteiro do primeiro encontro. Primeiro já era um termo complexo, já que eles se conheciam há dois anos e fossem amigos desde então. Na verdade, este era o primeiro encontro desde que ele havia declarado seus sentimentos por ela, que iam muito além da amizade que mantinham. Aquela conversa ficou guardada, pelo menos para Guilherme.

Alguns meses depois, Guilherme voltou a levá-la ao mesmo shopping, só que desta vez ele não a deixou escolher uma mesa para sentar. 

— Não precisa, moça sedentária. — ele estava encostado no balcão da lanchonete preferida dos dois. Tinha um brilho especial nos olhos e não parava de sorrir. — Quero te mostrar um lugar! 

— Que lugar? — ela ficou curiosa. 

— Se eu te contar não vai ter graça nenhuma. — ele levantou as sobrancelhas, como o dono da razão.

Cinco minutos depois eles caminhavam pelo estacionamento. Guilherme carregava as sacolas de papel próximas ao peito, e Helena entrelaçada no seu braço direito. Eles atravessaram a avenida e caminharam pela calçada da fábrica de café. Era pouco mais de 20:30, mas a cidade estava bem parada, não só por ser sábado, o fato de estarem em um feriado prolongado havia levado a maioria das pessoas a deixarem a cidade. 

— Você não vai me sequestrar, vai? — eles estavam deixando a fábrica para trás e chegando a uma empresa de mármore e granito desativada.  

— Você acha que depois de conhecer o seu pai eu teria coragem disso? Só dele me olhar quando eu chego na sua casa já sinto calafrios.

— Isso é porque ele ainda não pediu pra ver a sua carteira de trabalho. Ele está sendo bem bonzinho, na verdade.

— Ah, entendi. Com o tempo piora. Por que você não me disse isso antes? Teria ficado só como amigo mesmo.

— Você está começando a compreender. E o que é a vida sem um pouco de desafio, né não?

— Muito motivador. — ele parou próximo a um trecho da grade da empresa desativada que estava quebrada. — Já que você falou em desafios, tenho um pra você. Só precisa confiar em mim, ok?

— As coisas estão ficando um pouco estranhas, mas ok. 

De mãos dadas eles passaram pela cerca quebrada. Como estava bem escuro, uma noite distante da lua, Helena caminhou ao lado de Guilherme com os olhos voltados para o chão, mal percebendo onde eles chegaram. O rapaz soltou a sua mão e colocou as duas sacolas de papel no chão, aos pés de uma árvore. A tal árvore que Helena tanto amava. Seus olhos brilharam. Sua boca se transformou em um grande e fofo "O". Ela mal teve tempo de processar onde estava, de abraçar a árvore ou qualquer outra coisa do tipo, porque viu Guilherme se ajoelhar aos seus pés. 

— Helena, escolhi este lugar, diante do meu maior concorrente —  Guilherme apontou com as sobrancelhas a velha árvore —, para perguntar se você não gostaria de namorar comigo? — ele abriu uma caixinha preta, que tinha uma delicada aliança prateada. 

— Você vai ter que se superar para o pedido de casamento! 

Rindo, Guilherme colocou a aliança no dedo da moça. Depois eles se sentaram aos pés da árvore, devoraram os hambúrgueres e as fritas, e até notaram como as estrelas estavam mais brilhantes naquela noite. Nem os seguranças correndo com lanternas na direção dos dois estragaram aquela noite. 

— Será que dá pra você roubar a árvore pra gente plantar no quintal da nossa casa? — Helena falou ofegante. Estavam há mais de 100  metros dos seguranças, mas não corriam apenas por isso, parecia que estavam livres e que corriam para viver um futuro que fora tão sonhado pelos dois.

— Veremos!

Será que aquela árvore era a favorita de mais alguém?  

***

Este texto é um conto desenvolvido para o projeto 642 coisas sobre as quais escrever, o tema escolhido desta vez foi o 115: Sua árvore favorita.. Você pode saber mais detalhes sobre o projeto clicando aqui.


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