[Conversando com Deus] Onde está o seu valor, menina?


[Conversando com Deus] Onde está o seu valor, menina?


Elise estava deitada no sofá com o rosto enterrado em uma das almofadas. No chão, uma panela com as marcas de um brigadeiro devorado há menos de duas horas. Ainda de meias e com o uniforme da escola, a moça relutava em esquecer uma frase desagradável que ouviu na escola.

Em menos de duas semanas, a escola realizaria uma festa no fim de semana, com barraquinhas, guloseimas, danças, exposições de trabalho dos alunos e um desfile para eleger a garota e garoto estudantil. Na sala de Elise, embora as meninas não fossem nenhum pouco tímidas, ninguém se ofereceu para representar a turma. Entre uma aula e outra, as professoras incentivavam as meninas para que participassem, e foi com muita insistência de uma delas que Elise acabou dizendo sim, mesmo relutante.

Liberada da aula de Matemática, ela foi para a quadra onde as outras meninas se reuniam para o ensaio do desfile. Elise ficou deslocada. Escolas sempre são formadas por hierarquias e a dela não era diferente. Elise era popular entre os professores e querida na sala, se destacava pelo esforço, pelas participações nas aulas e boas notas, além da sua gentileza, preocupação com os que estava a sua volta, pelo seu jeitinho no dia a dia. Ela estava entre o ranking das conhecidas, mas não era tão popular quanto qualquer uma daquelas garotas que caminhavam rebolando e sorrindo pela quadra neste momento. 

Enfileiradas, a professora mandava que uma a uma elas caminhassem em cima de uma das linhas azuis que dividiam a quadra. Um frio na barriga crescia na garota enquanto sua vez se aproximava. Ao pisar na linha azul a menina sorriu e caminhou do melhor jeito que sabia, até que um dos meninos sentados na arquibancada resolveu expressar sua opinião sobre ela:

- Ih saí daí garota! Não sabia que as barangas iam desfilar também!

O comentário dele não foi desses irritantes que amigos costumam fazer, foi maldoso e tocou o coração de Elise. Sorrindo ela voltou para a sua posição, aguentou o ensaio até o fim e avisou a professora que havia decidido que não iria mais participar. Ela não contou pra ninguém o que havia acontecido, as pessoas ririam dela, né? A opinião daquele garoto não deveria importar, afinal ela era inteligente, tinha suas qualidades e era reconhecida por elas, tinha até sua própria concepção de beleza, mas ainda sim...

– Elise? – a voz do Pai arrancou a menina das cenas que revivia de olhos fechados.

– Uh? – ela não tirou o rosto do travesseiro.

– Por que será que sinto um cheiro de deprê nessa sala?

– Pode ser fruto da sua imaginação ou seus sentidos estão tão apurados que captam até o que não existe.

– Antes fosse! Faço minha análise com precisão, a coisa só estaria pior se você estivesse com a TV ligada, assistindo ao 7º episódio de uma maratona que já teria perdido o sentido há horas. – o Pai se sentou em sua velha poltrona, de onde podia ver toda a sala. – O que houve, Elise?

O olhar do Par era tão profundo e carinhoso que a garota não resistia: contava tudo para ele, sempre. Após ouvir com atenção o evento vivenciado pela filha, ele levou a mão ao queixo, pensativo.

- Sabe Elise, você está inserida em uma sociedade que valoriza muito mais as aparências do que o que as pessoas realmente são. As pessoas dedicam muito mais tempo contornando os olhos com lápis do que analisando seu comportamento, suas características. As pessoas acreditaram na mentira que contaram para elas a vida inteira: se você não for fisicamente atraente, não tem valor algum. Mas será mesmo? Será que uma menina que usa uma calça número 46 é tão diferente daquela que cabe na 36? Será que nós podemos analisar o valor de alguém olhando só as roupas que ela veste, o tipo de cabelo que tem e as curvas do seu corpo?

“Será que o fato de você não ter olhos azuis pode me fazer esquecer todas aquelas vezes em que vi você ajudar um idoso atravessar a rua? Será que o fato do seu cabelo ser cacheado e volumoso me faz ignorar todos os dias em que você sentou ao lado de um colega de turma para ajudar com a lição que ele tinha dificuldade?”

- Não... – Elise disse enquanto se sentava no sofá abraçando o travesseiro.

- Elise, você não é apenas o reflexo que vê no espelho, há muito mais aí dentro! Você é tudo aquilo que cabe no seu coração, e tudo aquilo que transborda também. Você é cada sorriso que dá. Você é cada pensamento e sentimento. Há Elise em cada uma das ações que a sua mente decidi fazer. No emaranhado que se chama Elise estão todos os livros que ela leu, todas as músicas que ouviu, os filmes que assistiu. Estão todos os princípios que você escolheu seguir, todas as tradições que tomou para si, todos os caminhos que escolheu trilhar. Você não é só pele e curvas, você é fé, é amor, é sabedoria.

Algumas lágrimas teimosas conseguiram escapar dos olhos da garota, o que fez com que o Pai se levantasse da sua poltrona e sentasse ao lado dela no sofá, puxando a garota para o seu peito.

- Sou suspeito para falar já que sou o seu Pai – ele olhou nos olhos dela –, mas quem tem mais autoridade para dizer do que eu? Afinal, você é uma obra minha! Você é linda, Elise! É linda por dentro e por fora. Agradeça todos os dias por não fazer parte dos padrões absurdos que este mundo impõe, sabe por que? Porque você não precisa se vestir para agradar ninguém, não precisa que um homem te elogie para descobrir que é linda, porque aí no seu coração você sabe de onde seu valor vem: dos céus. Você não precisa se enfeitar todas as manhãs porque as pessoas que estão a sua volta só valorizam aquilo que veem, não, sua vida não se resume a se esconder por detrás de máscaras que eventualmente cairão. Seu valor, seu maior tesouro, não está aqui fora, onde qualquer um pode pegar, tocar, usar e jogar fora, o seu tesouro está no coração e para descobrirmos os segredos e a sua beleza interior é preciso ser dedicado, é preciso trabalhar, conquistar e abrir o coração, para que em troca você abra o seu.

Elise abraçou o Pai com força.

- Mesmo que ninguém diga amanha que você é bela, saiba que eu sempre direi e minha opinião não costuma mudar. Você é bela agora, aos 17 anos, e continuará sendo bela aos 77. Meus olhos não veem apenas essa imagem aqui – ele passou a mão pelo rosto de Elise -, meus olhos são capazes de ver o seu coração também, e ele é tão lindo quanto!

***

Você deseja descobrir seu real valor? Então busque ver os olhos de Deus, você poderá ver seu rosto refletido nele e verá o quão lindo é! E mais do que isso, se você pudesse se sentar diante de Deus por pelo menos 5 minutos, não precisaria que Ele dissesse uma palavra se quer para perceber qual a concepção de você que Deus tem.

Pense no olhar de um pai para a sua primeira filha, é um mix de alegria por ser pai pela primeira vez, é orgulho de ter um pedaço dele e da esposa que tanto ama ali em suas mãos, acompanhado de um desejo eterno de não deixar que nada jamais machuque. Esse pai tem um olhar carregado de pureza, amor, respeito, dedicação. Embora Deus não seja humano, Ele é o próprio amor e esse amor não se vai quando Ele nos vê. Deixe que Deus te olhe, tenha nEle o seu espelho, seu valor mudará, tenho certeza.  

  

2 comentários:

  1. Que texto lindo, Thais!
    Realmente, devemos ter Deus como nosso espelho, é Nele que está o nosso valor <3

    Beijos
    PS: te indiquei para o Prêmio Dardos Bloggers
    http://www.colecionandoprimaveras.com.br/2016/04/premio-dardos-bloggers.html

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