Tudo o que ela precisa é aprender a confiar em Deus

terça-feira, janeiro 08, 2019



Já passava das 9 da manhã, mas eu ainda revirava na cama. Estava tão quente, que a cortina de renda branca não balançava um milímetro, apesar da janela estar aberta. O sono havia ido embora muito cedo, e os livros no criado mudo não tinham conseguido roubar a minha atenção. A verdade é que acordei ansiosa, com o coração palpitando e com aquela vontade de levantar e ter o controle sobre cada detalhe da minha vida. 

Virei na cama pela trigésima vez. Em uma das prateleiras da minha estante estava o canudo com o nome da faculdade e com uma declaração de conclusão de curso. Embora eu tivesse me preparado para aquele momento em todo o último ano da faculdade, a cada dia eu tinha mais certeza de que não estava pronta para aquilo. Durante a faculdade havia sido mais tranquilo me desapegar do futuro, estava atolada demais entre as atividades do curso, os livros, as provas, as aulas, correndo de um estágio para o outro, chegando em casa tão exausta que eu não tinha ideia do que faria no ano seguinte. 

Mas, o presente não é tão corrido assim mais. Em pleno fevereiro não tenho mais aulas para ir nem um emprego. No início achei que seria legal ter férias. Ficar em casa o dia todo. Ler quantos livros eu quisesse, assistir todas as minhas séries atrasadas. Ir a praia. Visitar a vovó no campo. Pedalar por aí.  Ter tempo disponível para a igreja. Mas em metade de janeiro eu já havia feito tudo isso, e o tédio chegou. Está instalado por aqui junto com a minha ansiedade, quase como uma pessoa a mais no quarto. E eu não consigo parar de pensar em todas aquelas estatísticas sobre graduados recém-formados que não conseguem emprego ao sair da faculdade!

Eu estava a ponto de virar na cama mais uma vez, quando alguém bateu na porta duas vezes. 

 Querida, posso entrar? — a voz do meu pai surgiu em meio as batidas na porta. 

— Pode, pai. — respondi.

Enquanto papai abria a porta, sentei na cama e juntei meus cachos em um rabo de cavalo alto, porque eu deveria estar tão descabelada quanto as minhas velhas bonecas. 

Meu pai trazia duas canecas de café recém passado. A medida em que sentava na minha cama, o cheirinho de café fresco inundou o quarto. Inspirei fundo.

— Pronta para começar mais um dia? — ele me perguntou enquanto me entregava uma das canecas.

— Mais ou menos. — respondi enquanto brincava com a fumaça que subia da caneca.  

— É impressão minha ou você está ficando ansiosa? — papai bebericou o seu café.

Argh. Ele me conhecia melhor do que eu mesma. Não adiantava mentir para ele. O mais certo é que ele já havia chegado naquela conclusão há alguns dias, e esperara tempo suficiente para que eu mesma abordasse o assunto, mas como isso não aconteceu... Aqui está ele. Cuidando de mim. 

— Já estou cansada de ficar em casa, pai. Achei que eu conseguiria alguma coisa mais rápido. 

— Filha, eu sei que durante a faculdade você imaginou, sonhou  e estabeleceu muitas metas, mas a vida não acontece exatamente como nós planejamos. Ela sempre nos prega peças. Você não deve se pressionar tanto. Você tem a vida inteira para se dedicar a sua carreira, na hora certa Deus irá abrir a porta. 

— Mas... — eu não queria reclamar sobre Deus, só que tinha alguma coisa presa na minha garganta, algo querendo escapar do meu coração e eu precisava colocar para fora. — Eu fiz tudo direitinho, pai. Fui uma boa aluna! Não faltei as aulas, tirei notas boas, me dediquei aos meus estágios... Por que tem que ser tão difícil começar? Já mandei currículos para tantos lugares! Mas ninguém me chama... 

— Querida, a vida adulta vai te ensinar que não depende apenas de você. Durante esses anos na faculdade você fez a sua parte, se dedicou, se aprimorou, cumpriu uma etapa que é apenas uma de muitas outras que você ainda terá. Agora você precisa aprender a confiar!

Papai deixou aquelas palavras no ar e levantou. Caminhou até a janela do meu quarto e abriu as cortinas. 

— Ficar deitada nesse quarto a manhã inteira, pensando no que você poderia ter feito melhor ou no que pode tentar agora não vai te ajudar a vencer essa ansiedade. Olha como o dia está bonito lá fora. — papai estava em frente a janela aberta.  Venha cá! — ele estendeu a mão para mim. 

Estava mesmo um belo dia. Segurei a mão que meu pai mantivera estendida para mim.

— Olha só o jardim da sua mãe! 

Mamãe tinha transformado o nosso quintal em um imenso jardim. Haviam diversos tipos de flores, de todas as cores possíveis, mas as suas flores favoritas eram as margaridas, porque foram elas que o papai lhe dera no dia em que pedira a sua mão em casamento.

— Sabia que esse jardim só começou por que ela queria ter sua própria plantação de margaridas? — papai perguntou. Eu me lembrava vagamente dessa história, por isso assenti. — Você sabe quantas vezes ela comprou saquinhos com sementes de margarida? 

— Não.

— Diversas vezes! No começo ela ficou toda empolgada com as sementes. Preparou os canteiros, afofou a terra e as semeou. Cuidava para que não regasse demais a terra. Apesar de terem surgido uns pequenos galhos, a plantação não vingou. Mas ela tentou de novo, mesmo assim nada. Depois de alguns meses, ela desistiu. Parou de ler livros sobre plantas. Deixou de comprar as sementes e até desanimou de cuidar das outras flores que cresciam no jardim. Só que eu sabia que com o passar do tempo ela descobriria-se decepcionada consigo mesma, porque ela queria mesmo ter aquelas flores na nossa casa. Então, um dia voltando do trabalho eu comprei mais um saquinho de sementes, e na manhã seguinte a convenci de que deveríamos preparar a terra juntos e, depois disso oramos por aquelas sementes.

— Vocês oraram por causa de flores? — perguntei surpresa. 

— Você acha que esse é um problema insignificante para Deus, mocinha? — papai tinha um sorriso sabichão e uma das suas sobrancelhas estava arqueada. 

— Bem, Deus com certeza tem coisas mais importantes para cuidar. — comentei.

— Diferente de nós, Deus não tem uma listinha que apontam quais são os problemas mais importantes e quais são os mais insignificantes dos seus filhos. E alguns meses depois, Ele nos mostrou que a nossa oração tinha sido ouvida. Os galhos vingaram desta vez e as flores nasceram, para a alegria da sua mãe. Em todas aquelas vezes em que sua mãe tentou plantar margaridas, ela havia feito tudo direitinho. Você sabe como a sua mãe é perfeccionista. — ele soltou uma risada. Nós sabíamos muito bem! — Mas não bastava apenas o trabalho dela ou o meu para que as flores nascessem. Era preciso contar com o solo, com o clima, com a água... E até com a vontade de Deus! Aquelas simples margaridas que você está vendo bem ali — ele apontou para elas, bem no centro do jardim — nos ensinaram que apesar de fazermos a nossa parte precisamos acima de tudo aprender a confiar em Deus. 

Papai ficou em silêncio alguns instantes, e aquele silêncio, interrompido apenas pelo canto dos pássaros que brincavam pelo jardim e pela voz da mamãe que cantarolava em algum lugar da casa, foi suficiente para que as palavras de meu pai adentrassem o meu coração encontrando lugar para ficar. 

Inspirei o cheiro das flores que vinham do jardim e se misturavam com o cheiro do café, e apertei a mão de papai, a medida em que uma certeza crescia em meu coração: eu havia feito a minha parte e não adiantava nada ficar ansiosa nos próximos dias, porque agora eu precisava deixar com Ele, com meu Pai Celestial. Um dia eu confiei minha vida a Ele, dando-lhe autoridade para que escrevesse cada um dos meus dias no seu Livro da Vida, agora eu precisava aprender a confiar que a sua vontade e os seus planos eram muito melhores do que os meus.  





Este texto é um conto, que faz parte da série Conversando com Deus.


  

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