Eu escrevo porque…

Em uma tarde ensolarada no jardim de infância lembro de
estar brincando com uma amiguinha na gangorra, toda vez que ela ficava no chão
enquanto minhas pernas magricelas ficavam suspensas, eu fechava os olhos e me
imaginava voando… O meu segredo sempre foi este: mesmo cercada de gente
sempre dei um jeitinho de ficar sozinha, perdida dentro da minha imaginação.

Mas este não foi o único acontecimento daquela tarde, como toda criança nós
cansamos da gangorra e decidimos ir para outro brinquedo, o combinado foi que
eu descesse primeiro e a Bia depois.
Só que a Bia não soube esperar, não dá pra exigir isso de
uma garotinha de 5 anos que está louca para ir para o balanço! Antes que eu
estivesse longe o suficiente da gangorra, a Bia desceu e o que aconteceu? A
minha parte da gangorra subiu e a madeira onde estivera sentada instantes atrás
bateu com tudo na minha garganta. Depois disso lembro de estar no banheiro da
nossa sala com a professora, ela tentava limpar o sangue da
minha boca e do meu uniforme, e ao mesmo tempo cochichava palavras de carinho
para que eu ficasse tranquila. É a este ponto que queria chegar, quando se é
criança um carinho basta, um abraço de mãe é suficiente para acalentar toda
dor, um algodão doce tem o poder de curar machucados e um sorvete cessa
lágrimas! Mas quando a gente cresce o que acontece?
Não sei você, mas nunca soube lidar com os meus problemas,
sempre fui uma ótima psicóloga para os amigos, mas péssima comigo mesma. Se
alguém brigasse comigo, eu não gritava nem me estressava com a pessoa, apenas
revia minhas atitudes, pedia perdão se tivesse errado e seguia em frente.
Acostumei a engolir sapos e a fingir que não ouvia uma porção de coisas.
Ignorei sentimentos e sensações, e busquei ao máximo ficar bem comigo mesma…
Mas tem uma hora que não dá mais, não dá pra ficar guardando, não dá pra fingir
que não ouviu, nem pra deixar de dizer o que seu coração precisa tanto dizer,
talvez você me ache medrosa, não sei, mas a única solução para acalmar a
tempestade que acontecia aqui dentro foi escrevendo.

Comecei a escrever tudo aquilo que deveria ter dito, mas não
disse, e veja só, ninguém se machucou, e acabei descobrindo que quando o lápis
parava eu já estava bem melhor! Contei ao papel todos aqueles sonhos e desejos
que não tinha coragem de contar a ninguém, desabafei sobre situações que me
faziam chorar como uma menininha e voltei a ter esperanças a cada novo
parágrafo. Escrevi verdades e mentiras, visitei lugares, criei personagens,
contei histórias. Fui eu no meu mundo. 
E quanto mais escrevo mais percebo as poesias que andam espalhadas por aí: uma flor que brotou entre pisos de concreto, um pôr do sol entre as árvores, uma chuva ao fim da tarde… A escrita me tornou alguém sensível e sonhadora, alguém que anda com bloquinhos na bolsa e que anota a doçura de um idoso ao ver que um jovem lhe cedeu um lugar para sentar no ônibus lotado. Gosto de ter um olhar diferente sobre a vida, gosto de analisar e poetizar as pequenas coisas. Amo contar o que vi, ouvi e principalmente senti. Escrevo porque sinto necessidade de viver
além do que a realidade me oferece. Porque encontro poesia nos pequenos
detalhes da vida. E porque quero eternizar tudo o que encontrei de bom. 
***
Este texto faz parte do Projeto Literário 16 on 16, onde 16 blogueiros, todo dia 16 produzem um texto sobre um tema selecionado. O tema deste mês foi: “Eu escrevo porque…” Confira os textos dos demais participantes!

18 comentários sobre “Eu escrevo porque…”

    1. Ainda bem que o papel nos lê, Ellem! Eles nos salvam rsrs
      Own, linda! Muito obrigada! Fico feliz por gostar dos meus sentimentos no papel 😀
      Deus te abençoe, pequena!
      Beijos :*

  1. Lindo texto. Você foi incrível na sua explicação e tem uma habilidade impressionante com a escrita, espero que esta apenas evolua e te leve ao ápice de onde você quer chegar!

    1. Amém, Lys! Fico lisonjeada com a sua opinião, com certeza me incentiva a continuar *-*
      Desejo toda inspiração do mundo pra você, que este amor que temos pela arte da escrita nunca morra!

  2. Tu escreve muito bem guria. Sério, sempre um ótimo texto. "Escrevi verdades e mentiras, visitei lugares, criei personagens, contei histórias. Fui eu no meu mundo. " Afinal é sobre isso né? Poder criar o que quiser.Acho que não existe divertimento maior que esse btw.
    Beijos!

  3. Thais quanta doçura e delicadeza no seu texto! Escrever é tudo isso que você descreveu e um pouco mais. As palavras nos dão o poder de levar as pessoas a vários outros mundos e sentimentos. Muito lindo mesmo! Amei

    Parabéns! Beijos

  4. Identifiquei-me muito com o seu texto Thaís. Tanto em relação a sua personalidade quanto aos motivos que a fazem escrever. Sem dúvida, a escrita serve como uma forma impessoal de terapia, é a gente desabafando para as palavras e elas acolhendo nossas angústias.
    Belo texto!!
    Beijos

  5. É lindo como a escrita é capaz de eternizar coisas que, muitas vezes, cairiam no esquecimento em algum momento. Encontramos aí mais um tipo de resgate por trás das palavras, não é, Thaís? Gostei um monte do seu texto!

    1. Exatamente, Nicolle! Minha mente pode esquecer de um montão de coisas, pode me pregar peças e tudo mais, mas o meus textos continuarão vivos, daqui 60 anos posso lembrar de coisas que vive pelos textos que escrevi… A escrita é viva e eficaz! Escrevo para mim, para os meus filhos, para a minha família, escrevo para o futuro também *-*
      Que bom que gostou! Obrigada pela visita, meu bem! ><
      Beijos!

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