A extraordinária beleza do simples

Lembro de uma manhã na escola, talvez há dez ou onze anos atrás (cara, estou velha!), a professora falava sobre Santos Dumont, sobre o 14 bis e a casa dele. Na época fiquei encantada por aquele rapaz sonhador que acreditava que iria voar um dia e voou. Lembro vagamente da professora descrever a casa dele, de como ela era feita sob medida para o homem pequenino e as várias invenções que havia na casa que a tornavam única! Passei dias sonhando com a casa do aviador só não sabia que anos depois teria a oportunidade de conhecê-la.
Além de um pouco da história do Dumont e das tais inovações que jamais vou esquecer, a casa “Encantada”, em Petrópolis, cidade carioca, me fez lembrar do quanto o simples possuí a mais pura e digna das belezas. 
A casa não se chamaria “Encantada” se realmente não fosse, ao olhar o seu lado exterior você não demora a concluir que ela poderia muito bem pertencer a uma história de contos de fada, e seja enquanto você sobe as escadas, que foram personalizadas por Dumont ou quando você adentra a casa miúda, você continua tirando as mesmas conclusões. Deixa eu tentar te explicar um pouquinho da casa, as escadas, seja no exterior ou interior, são personalizadas, cada degrau é cortado de acordo com o passo que você deve dar, por exemplo, o primeiro degrau deve ser pisado com o pé direito, então há madeira do lado direito e o lado esquerdo foi cortado para você ter espaço para levantar a perna para dar o passo seguinte… Acho que é mais fácil mostrar a foto pra vocês…
Como eu disse a casa é pequena, porque Santos era pequeno, a mesa de centro e as cadeiras são pequenininhas, o espaçamento das escadas também e as prateleiras das estantes. O seu escritório era no próprio quarto, e as coisas que ficavam em sua escrivaninha eram guardadas a noite e em seu lugar era colocado um colchão. Não havia cozinha na casa, porque ele contratou o serviço de um restaurante que havia em frente à Encantada para lhe servir o almoço e o jantar todos os dias, com garçom e tudo mais, da mesma forma que ele vivera na França durante anos… 
Mas não são destas curiosidades que fazem a casa dele um charme, que quero abordar neste texto, mas tenho que contá-las para que vocês entendam meu ponto de vista. A atual exposição não conta com tantos móveis, então nós temos contato mais com objetos pessoais, presentes que ele ganhou, cartas e documentos que narram um pouco da sua vida. Enquanto eu admirava a vista do quarto/escritório de Dumont ouvi uma moça perto de mim dizer o seguinte: “É claro que a exposição é tão barata, a casa está fazia! Ele não tinha nada e blábláblá…” e vários outros comentários que sinceramente aguçaram o meu espírito de historiadora que tem sido construído e feito pensar em quantas baboseiras a garota estava falando. Só que este também não é um texto sobre História e tudo mais, então vou me focar na mensagem que surgiu pra mim instantes depois que ouvi a garota dizer asneiras. 
Naquele exato instante olhei a minha volta e me lembrei da garotinha de anos atrás que desejou conhecer a casa daquele moço, aquela garotinha que agora é uma moça não estava decepcionada pela visita, na verdade estava extremamente encantada e viu a beleza no mais simples. 
É verdade que a casa dos Santos está sem os móveis, também é verdade que seria mais legal entrar ali e ver tudo como realmente era, só que mesmo sem os móveis a casa ainda continua sendo um lugar encantador, sejam pelas invenções particulares, como as escadas ou o chuveiro, que é um balde com vários furos, seja pelos presentes como um lindo vaso de cerâmica (se não me engano) que ele ganhou da princesa Isabel, a beleza daquele lugar está na luz que penetra a janela do quarto, que por sinal já é linda por ser muito semelhante a uma janela de um sótão, ou nas estantes com livros raros do primeiro andar… A beleza está ali, de forma pura e delicada basta ter olhos para ver.
Só que nós nos acostumamos a desejar encontrar coisas extraordinariamente divinas. Queremos ver coisas que “ostentam”? É, acho que sim. Estamos pré-dispostos a sermos encantados pelo luxo e pela riqueza, e não nos apegamos a detalhes pequenos e simples, que muitas vezes nos passam despercebidos. 
Talvez nós devemos voltar a ser crianças, daquelas que tinham os olhos brilhando pelas coisas mais simples da vida. O que me faz lembrar de um pai que durante a exposição ficou contando a história de Santos Dumont para o filhinho, que não deveria ter mais que cinco anos, de forma animada, divertida e educadora. Possivelmente aquele garotinho será um grande homem, determinado, sonhador e cheio de personalidade quanto Dumont foi. 
Tudo o que queria dizer hoje é que sejamos capazes de nos encantar com o simples, de ao ir admirar alguma coisa não levarmos na bagagem os preconceitos, a ignorância e o desejo de ambição (de coisas grandes e extravagantes) que muitos de nós tem… Se nós fossemos mais simples e ingênuos como crianças tivessem a capacidade de sorrir mais e ser mais nessa vida.
***
Como disse a casa de Santos Dumont fica em Petrópolis, bem no centro da cidade.
Está em funcionamento de terça-feira à domingo, das 9:30 às 17 horas. 
Inteira: 5,00
Meia: 2,50

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