[+QP] Mas era pra gente estar junto nessa

O campus fica bem vazio nas sextas-feiras, todos os graduandos montam suas grades pensando em folgar na sexta ou na segunda, e esse ano não foi diferente. O sol desce pelas árvores e o calor da primavera carioca me faz desejar estar com qualquer outra roupa menos calça, mas não dá pra reclamar muito, vestir calças e camisas sociais fazem parte do curso que escolhi, não dá pra ir desarrumada para o estágio que consegui na área de Administração de Empresas. Checo o relógio no meu pulso pela centésima vez, faltam três minutos para às 17 hrs. 3 minutos para Lucas deixar uma das suas aulas de Direito e me encontrar na pátio de aulas teóricas, onde estou sentada esperando há meia hora. 
Chego minha bolsa à procura do que preciso mostrar a Lucas. Ele está na sua caixa, intacto, como se ainda não tivesse sido usado, mas é só olhar com mais atenção para ver uma das extremidades da pequena caixa está aberta. Ainda não parece real. Não pode ser real. 
Às 17 em ponto vejo Lucas descer as escadas acompanhado de alguns colegas de turma. Aceno para ele. Ele acena de volta. Não sabe porque estou aqui, acha que só quero vê-lo, dar um beijo ou algo do tipo. Não sei qual será a reação dele quando souber a verdade. 
– Oi, amor. – ele se aproxima e me rouba um beijo rápido.
– Oi! – me aconchego em seus braços e desejo que o conteúdo da minha bolsa não seja real. Mas é. – A gente precisa conversar, Lucas. 
– Tá, claro! 
Entramos no carro de um dos amigos dele e pegamos uma carona até o centro da cidadezinha onde moramos, a mais próxima da faculdade que é basicamente composta por repúblicas. Nós não moramos juntos, embora Lucas more na mesma rua que eu. Nos conhecemos em uma festa na minha república e depois disso não paramos mais de nos ver. Lembro da minha mãe não concordar em me deixar em morar em uma república, na verdade ela não queria que eu viesse para uma faculdade tão longe de casa, “Pra que ir pra tão longe se tem o seu curso aqui, Carol?”, ainda sou capaz de ouvir sua voz. “Porque o curso lá é bem mais renomado do que o da faculdade daqui, mãe.”, eu respondia, sempre destacando o drama de morar em cidade pequena. Os cursos não eram mesmo bons. Então depois que passei, a convenci em me deixar vir e a dividir uma casa com outras garotas. Não tinha outro jeito, onde eu poderia morar? 
Assim como ela eu também não queria participar de festas e outros elementos boêmios de uma vida acadêmica, mas se privar dessas coisas é muito mais fácil quando você está longe, agora quando se está perto é quase impossível… Quando as festas não aconteciam na nossa casa, elas rolavam na das vizinhas ou há duas casa a frente, ou na casa do fim da rua, a que Lucas morava. Acabei me adaptando a ir às festas, não era mais tão ruim quanto no início, principalmente depois que conheci o Lucas, enquanto todo mundo ficava bêbado nós conversamos e nos mantínhamos sóbrios. Não demorou para que nos apaixonássemos e logo meu plano de não me envolver com ninguém durante a faculdade foi por água a baixo. 
Entramos na pequena cozinha do apartamento que divido com mais duas garotas, elas não estão. Tem um bilhete na geladeira me lembrando que elas foram pra casa nesse fim de semana. Lucas e eu estamos sozinhos, e assim que ele percebe que ninguém vai chegar me abraça por trás enquanto eu tiro uma jarra de suco da geladeira. Ele beija meu pescoço. 
– Lucas, agora não. Preciso ter uma conversa séria com você. – falo séria, se não for assim ele não vai me escutar.
– Não pode ser depois? – ele me vira e tenta me beijar. 
– Não, não pode. Precisamos mesmo conversar. 
Ele faz um barulho esquisito com os lábios, me mostrando que está exasperado. 
– O que é então? – ele pergunta enquanto puxa uma das cadeiras de madeira para sentar.
Embora tenha desejado por esse momento o dia todo, agora não sei por onde começar, na verdade não há um jeito fácil para fazer isso.
– Tenho me sentido mal há alguns dias… – me viro para a pia fugindo de seus olhos, usando a jarra de suco e os copos como desculpa. 
– O que você tem? – ele soa preocupado. 
– Tenho me sentido enjoada, tanta às vezes e muito cansada. Hoje quase dormi no trabalho. 
– Sério? O que será que pode ser? – sua voz soa temerosa e desconfiada.
Caminho até a mesa e coloco um copo de suco de laranja na frente dele, pego minha bolsa que havia deixado no chão, e me sento de frente para ele. Tiro a caixinha de lá. A coloco em cima da mesa e ele a puxa para ele. 
– Você já usou? – sua voz saí amedrontada e vejo gotas de suor surgirem na sua testa.
– Já. – respondo e sinto meu próprio suor surgindo, estou com tanto medo quanto ele.
Ele abre a caixa com o teste de gravidez e fica olhando para o resultado. Longos minutos de silêncio nos cercam. Espero que ele se levante, que caminhe até mim, que me abrace e diga que vá ficar tudo bem. Não era esperado, mas podemos lidar com isso, não podemos? Um filho não é o fim do mundo. Ele pode chorar e ficar com medo, também estou com medo e quero chorar agora, mas não é isso que ele faz. De tudo o que eu esperava desde que comecei a desconfiar que estava grávida, ele faz exatamente o contrário.
– Você só pode estar brincando com a minha cara, Carol! – ele joga o exame em cima da mesa e se levanta, bruto, enraivecido. Não é o Lucas que conheço.
– Lucas, calma… – falo baixinho, com o coração na mão. Não é só culpa minha.
– Calma? Olha o que foi que você fez! – ele leva as mãos ao cabelos, os bagunçando sem parar. – Quantas vezes eu te disse que a faculdade é minha prioridade? É tudo o que importa pra mim! 
Suas palavras soam frias e fortes, tem mais poder que um soco em meu estômago.
– A culpa não é só minha, eu não fiz essa criança sozinha. – falo antes que as lágrimas quentes ganhem vida. 
– Não importa. – ele esfrega as mãos nas calças agora. – Você vai tirar. Nós não precisamos de uma criança agora! 
– O que? – pergunto exasperada. Tirar não era e nem é uma opção pra mim. Não posso fazer isso, não posso. – Não vou matar um bebê, Lucas! – falo determinada, consumida por raiva.
– Ele ainda não é um bebê… É só uma bola estranha dentro de você. – ele me dá nojo. – Não quero esse bebê, Carol. Não quero. – ele está chorando agora, como um garotinho de cinco anos.
– Você tem certeza? – espero pela resposta dele. 
– Tenho. – ele não olha pra mim. Volta a se sentar na cadeira e esfrega a testa sem parar. – A gente pode tirar não pode? – agora ele olha pra mim, seu desespero é claro, mas o que ele me pede é impossível.
– Não Lucas, a gente não pode. Era pra gente estar junto nessa pra cuidar dessa criança e não pra não desfazermos dele… – junto uma força de onde não tenho. – Se não é isso o que você quer, então pode ir embora agora. 
Ele olha pra mim em pânico, tudo em mim pede que ele volte atrás, que decida encarar esse desafio comigo. Ele se levanta de novo e caminha até mim. Estou começando a ficar aliviada. Nós vamos resolver isso, mas tudo o que ele fez é beijar a minha testa.
– Me desculpa. – ele sussurra, logo depois me dá as costas, pega a mochila que estava jogada ao lado da cadeira e saí. Pela janela da cozinha posso vê-lo caminhar até o fim da rua, os ombros caídos, as mãos ainda bagunçando os cabelos.
Naquela noite esperei que ele ligasse ou que voltasse, que tomasse uma decisão diferente, mas ele não tomou, até agora não tomou. A faculdade ficou para trás, as calças sociais estão guardadas em uma mala debaixo da minha cama, preciso demais espaço no guarda-roupa para as coisas da bebê. Minha mãe me recebeu em casa e embora esteja me ajudando me tudo, posso ver no fundo dos seus olhos o quanto ela está triste. Embora minha filha seja vida, seja alegria, eu falhei com meus próprios planos.             

***
Essa história não é real, mas quando vi o tema deste mês do projeto “Mais que Palavras”, logo pensei em escrever algo do tipo. Quantos casos de gravidez indesejada não vemos por aí? Seja entre adolescentes, jovens e adultos. Não acho que o nascimento de uma criança seja ruim, pelo contrário, como encerrei essa história, uma criança é vida, é um projeto de Deus e é por isso que tenho a concepção de que deva viver em um momento certo. Uma criança merece crescer em um lar estabilizado e ter a presença dos pais da melhor maneira possível. Só que às vezes a nossa pressa faz com que as coisas acontecem antes, tomamos decisões tão importantes de forma tão precipitada.
A história da Carol e do Lucas é só uma forma de te mostrar que você e o seu namorado não precisam correr com as coisas, deixem os momentos fluírem devagar, curtam a paisagem da viagem que iniciaram quando começaram este relacionamento. Quando Deus nos pede para vivermos em santidade e esperarmos a hora certa, é porque Ele deseja que vivamos todos os momentos da melhor maneira possível, para que seja mágico e inesquecível, e não corrido e dolorido. Lembre-se: tudo o que se planta, se colhe. 
Tema: “Mas era pra gente estar nessa.”

Este texto faz parte do Projeto Mais que Palavras, um grupo que se reúne no Facebook e traz propostas mensais para textos, contos, crônicas, etc., com a missão de tirar nós, (jovens que sonham em ser escritores), de sua zona de conforto e por em prática a atividade que tanto amam. Para saber mais sobre o projeto basta clicar na imagem abaixo, você será redirecionado para o grupo do projeto. 

2 comentários sobre “[+QP] Mas era pra gente estar junto nessa”

  1. Sério, me emocionei aqui! Não achava que ele faria isso 🙁
    Como você disse, há muitos casos desse tipo acontecendo ao redor do mundo. Casais que não tem responsabilidade e que só pensam em diversão acabam nessa situação, e muitas vezes os incentivam a "tirar" o bebê. Ele é uma vida como a nossa! Fico triste ao ver que muitas pessoas ainda concordam com o aborto…
    Ótimo conto!
    Também fiz um para esse roteiro de Outubro :3 bjs.
    http://www.thoughtsandadventures.com.br

  2. Muito emocionante a tua narrativa.
    Infelizmente, coisas assim acontecem mais do que a gente imagina. Devemos sempre estar atentos ao tempo e à vontade de Deus na nossa vida, pois quando agimos diferente do que Ele planejou pra nós até o que deveria ser apenas bênção se transforma em tristeza.

    Beijos
    Colecionando Primaveras

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