[QP+] Desaparecida

desaparecida_princesasadoradoras

Diário da Malu

Sexta, 16 de novembro de 2012

Na noite de uma sexta-feira fria de novembro de 2012, um ônibus de turismo nos esperava na antiga estação ferroviária da nossa cidade. Finalmente havia chegado o dia em que embarcaríamos para Ouro Preto, uma dessas viagens escolares que nos fazem perder noites de sono e criar planos mirabolantes com as amigas. Ana queria dar o primeiro beijo em Filipe, eles estavam afim um do outro há tempos! Fernanda queria tirar muitas fotos para o blog que havia acabado de criar, enquanto Érica só desejava ser surpreendida pelos quatro dias que se seguiriam. Para ser bem sincera, embora estivesse muito animada, não tinha muita certeza sobre o que esperar daquela viagem. Tirando os pequenos passeios da escola para conhecer algum lugar histórico da nossa cidade ou a estação de tratamento de água, aquela era a primeira vez que meus pais me deixavam ir para uma viagem sem eles. Todo ano a Fê ou a Érica me convidavam para passar pelo menos um fim de semana na praia com elas, e por mais que meus pais as conhecesse – e aos seus pais também – meus pedidos nunca eram atendidos. Um inferno havia acontecido lá em casa para que eles finalmente consentissem com a minha vinda, e era mais do justo já que aquele era o nosso último ano na escola, ano que vem viria a faculdade e a tal vida adulta… Além do mais o que poderia acontecer?

Acabei de acordar. São quase 5 da tarde. Não sei muito bem que dia é hoje. Folheando meu diário descubro que a última vez que escrevi nele foi na sexta-feira, enquanto ia para Ouro Preto, como estou vestida com o meu velho pijama de ursinhos e sentada no meu edredom azul, presumo que já cheguei em casa, embora não me lembre muito bem de como isso tenha acontecido. Pareço uma daquelas garotas que foram embebedadas com “Boa noite, Cinderela” em um dos episódios de Law & Order – SVU. Deixo minha cama e caminho para a cozinha, mamãe já deve ter chegado do trabalho. Surpreendo-me com o silêncio que envolve a casa, Lucas, meu irmão mais novo, não está em frente a TV – como de costume – jogando um dos seus games de guerra, nem mamãe está na cozinha preparando seu chá. Volto em direção ao quarto, passando direto pelo meu e entrando no dos meus pais. Também não há ninguém ali. Deito na cama e fito o teto, buscando imagens do último fim de semana. Tiramos muitas fotos, como Fernanda queria? Se sim, poderia recuperar a memória através delas. Ana ficou com Filipe? Soquei a cama com raiva e sem querer derrubei um livro.

Precisei procurar o livro debaixo da cama, a força do meu soco havia sido maior do que imaginei, e no minuto seguinte desejei não ter feito isso. Um frio incontrolável começou a crescer na minha barriga, um buraco se abriu sob meus pés e parecia que eu caía por um túnel escuro e sem fim. O que havia no papel? Uma foto minha, tirada algumas semana atrás e bem embaixo dela, em letras maiúsculas, a palavra “DESAPARECIDA”. Aquilo só poderia ser brincadeira, né? Como estava desaparecida se era o teto da minha casa que estava sobre a minha cabeça naquele exato momento? Alguém não iria me sequestrar e me devolver sem memória alguma no dia exato que deveria chegar em casa, certo? Essas coisas não acontecem nem nos seriados americanos!

Corri para a cozinha. Mamãe mantêm um calendário colado na porta da geladeira, coberto por Post-its para nos lembrar o que fazer. Deveria estar no mês de novembro, mas não é esta folha que está exposta ali. Na verdade, o calendário que ali se encontra se quer é do ano de 2012! Novembro de 2014, é isso que está escrito! É mais alguma brincadeira? Só pode! Lucas adora aprontar! Deve ter visto isso em um daqueles filmes sem noção que assiste de madrugada e resolveu se vingar do dia em que disse para namoradinha dele que ele é tão medroso quanto um garotinho de 5 anos, porque vive se enfiando entre a mamãe e o papai na cama quando tem pesadelos.

Deixando a cozinha, entro no escritório do papai e ligo o computador. No minuto em que espero o aparelho iniciar, ouço um carro entrar na garagem, termino de ligar o pc para ver a data ou corro para ver quem é? Antes que eu decida o computador liga e volto a cair em um buraco sem fundo ao ver no monitor “Quinta, 20 de novembro de 2014”. Quero parar de cair! Não posso ter perdido dois anos da minha vida assim sem lembrar de nada!

Ouço saltos vindo pelo corredor, mamãe passa direto pela porta do escritório entrando em seu quarto.

— Mãe!? – minha voz saí o mais alto que posso. Há esperança nela, mamãe pode me explicar o que aconteceu, só o fato de estar em casa agora é um sinal. Mesmo que tenha perdido dois anos, ainda tenho vida e páginas a serem escritas, contudo há temor também, e desespero diante do que posso descobrir.

Como ela não me responde, caminho até o seu quarto e me encosto na porta.

— Mãe? — ela está sentada em sua cama tirando os seus saltos, não muito distante de mim, porém não dá resposta alguma. Pela terceira vez, a chamo. — Mãe?

 Ela olha em minha direção, mas seus olhos estão distantes, como se vissem além de mim. Tudo o que ouço são os sons da nossa respiração. O rosto de mamãe prende os meus olhos, ela está diferente, está cansada e velha… Seus olhos, sempre tão alegres e atentos, estão cercados por olheiras profundas e as marcas de expressão — que eram imperceptíveis quando saí para viajar — estão muito mais fortes. Seus lábios não sorriem, permanecem em linha reta, azedos, amargos.

— Mãe! Eu tô aqui! — sento ao lado dela na cama e a toco, mas… Mas… Ela não me sente! — Mãe!!? — não é mais uma pergunta, é um clamor, um pedido de socorro. Soluços saem em meio ao meu choro desesperado. — Mamãe! Mamãe! — Nada pode fazê-la me ouvir. Me sinto presa em um daqueles globos de neve, pequena ao ponto de não ser vista por ninguém, e presa por uma capada espessa de vidro que abafa o som da minha voz. É um pesadelo real.

O que pode ter acontecido? Pego um dos cartazes que estão no chão e procuro por mais informações.

DESAPARECIDA

Maria Luíza Fernandes

17 anos

Desapareceu em Ouro Preto (MG) – 18.11.2012

Qualquer informação entre em contato com a polícia.

Desaparecida? Até aí dá pra processar, só que agora estou em casa, mas mamãe não pode me ver… O que mais pode ter acontecido?! Volto para meu quarto à procura de qualquer coisa que traga respostas, tudo está exatamente como deixei antes de ir para a viagem, não há nada ali que me ajude. O jeito é usar a internet! Digito meu nome no Google e espero por respostas. Há pelo menos meia dúzia de links de jornais associados ao meu nome. Clico no primeiro deles e enquanto estalo os dedos morro com o título da notícia:

Adolescente desaparecida é encontrada morta nos arredores de Ouro Preto

A matéria é de 20 de dezembro de 2012.

***
 
Elemento surpresa: Você encontra cartazes de “pessoa desaparecida” debaixo da cama dos seus pais. Todos eles tem sua foto.

Este texto faz parte do Projeto Mais que Palavras, um grupo que se reúne no Facebook e traz propostas mensais para textos, contos, crônicas, etc., com a missão de tirar nós, (jovens que sonham em ser escritores), de sua zona de conforto e por em prática a atividade que tanto amamos. Para saber mais sobre o projeto basta clicar na imagem ao lado, você será redirecionado para o grupo do projeto.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

code