Hanna, capítulo II

Hanna-livro

Semana passada postei o conto “A menina das meias roxas”, inspirado em um tema do projeto 642 coisas sobre as quais escrever. Enquanto trabalhava mais no texto e nas ideias para o projeto, decidi que além de postar o capítulo semanalmente por aqui, também irei postar no Wattpad — uma plataforma de livros, fanfics, histórias em geral que são escritas por autores independentes, amantes do mundo da leitura, aspirantes escritores. Os pontos positivos de postar no Wattpad é que ficará bem mais organizado e vocês poderão ler os capítulos sempre que quiserem.

Sinopse:

Enquanto voltava de uma festa de aniversário com o irmão, Paulo vê uma garota da escola sendo arrastada aos berros por um homem barbudo. Sem saber de onde a sua coragem veio, o rapaz de 17 anos, desce do carro e tenta ajudar a garota. A garota é Hanna, mais conhecida em sua escola como Canhão. Hanna só é vista escondida entre camadas de roupa, que funcionam de forma tão perfeita quanto um forte em volta de um castelo. Hanna é enigmática e misteriosa. Disposto a desvendar os segredos de Hanna, Paulo se aproximará sem ter a mínima ideia do que o futuro lhes reserva. Um capítulo novo por semana.

Para ler a história no Wattpad basta clicar  aqui.

Capítulo II

Hanna

A falsa simpatia alheia me incomoda e muito. Perguntas do tipo “Ei, tudo bem?”, “como foi o seu dia?” ou “o que você anda fazendo?”, costumam me causar náuseas, porque por mais sincera e simpática que eu seja, sempre fico com a sensação de que a pessoa não está dando a mínima para mim e para o que digo, e já que as pessoas não querem mesmo saber, por que sou obrigada a responder?

As pessoas que já me conhecem – são poucas, obvio – sabem que não vão receber mais do que monossílabas e com o tempo passaram a perguntar só o necessário.

Na escola, as pessoas deixaram de perguntar faz tempo. Elas preferem rir das minhas roupas, tentar descobrir por que uso tantas ao mesmo tempo e sussurrar coisas grotescas quando passo por elas. Eles parecem se divertir muito enquanto me chamam de Canhão, mas já foi pior. Quando estava no 6º e 7º ano, a professora de educação física insistia que devia nos pesar.

Duas vezes por ano, ela arrastava pela quadra aquela balança de ferro e em ordem alfabética pesava cada criança. Quando eu descobria um dia antes que isso iria acontecer, me arrumava para ir  à escola, só que não chegava a entrar. Próximo a minha antiga escola, havia uma biblioteca pública e eu passava a manhã toda escondida entre as estantes de livros. Nem sempre isso dava certo, quando funcionava a professora me levava para a sala dela e me pesava longe dos olhos das outras crianças.

Assim cada um daqueles pirralhos intrometidos não me viam tirando mais da metade da minha pilha de roupas e não riam do quão velhas elas eram. A maioria das minhas professoras de educação física estavam mais preocupadas em voltar a folhear as revistas da Avon ou a receber massagens das alunas “patricinhas” que não podiam fazer educação, então nunca chegavam a perguntar o por quê de tantas peças.

Nas vezes em que dei azar e só descobri a pesagem quando estava entrando na quadra, era obrigada a ouvir comentários desnecessários.

— Professora, é melhor deixar a Hanna por último porque até ela tirar todas essas roupas…

— É melhor deixar a Hanna sozinha, vai que saí um rato daí!

Eram coisas desse tipo. Ainda me considero sortuda, porque não preciso em todas as aulas trocar de roupa diante de um bando de garotas idiotas nem passar uma hora por semana sendo sincera com um psicólogo. Viva ao Brasil e a sua falta de infraestrutura!

Aquele tal de Paulo me surpreendeu duas vezes. A primeira foi quando meteu a colher na briga ao ar livre que o meu padrasto resolveu fazer semana passada e a segunda foi quando soou sincero ao me perguntar como estava. Aquela foi a primeira vez que senti vontade de responder em anos!

Não esperava que ele fosse voltar a falar comigo, pelo pouco que sabia, Paulo estava no 3ª ano, enquanto eu era do 1º, embora não fosse popular, não era solitário, estava sempre cercado por um grupinho de nerds estranhos ou jogando vôlei na quadra de areia, e pelo jeito que caiu com aquele soco, mesmo que estivesse preparado para recebê-lo, jamais ficaria de pé.

Na manha seguinte, quando ele sentou ao meu lado e puxou um dos meus fones de ouvido, meu estômago se retorceu, como se eu estivesse prestes a ter uma dor de barriga.

— E aí?

— Oi. – respondi enquanto tentava arrancar o meu fone da mão dele.— Achei que nerds não perdiam um minuto de aula se quer.

— Não sou nerd!

—Então, o que você é?

— Pensei que você seria a última pessoa a se preocupar em dividir as pessoas em grupos.

— Só por que não faço parte de nenhum grupo?

— Não foi isso que eu quiser dizer… — a voz de Paulo falhou.

— O que você quer, Paulo?

— Apenas ficar sentado aqui, Hanna.—sua voz soou firme. Ofereci um fone a ele e esperei que o colocasse para dar play no MP3.

Não estava acostumada a ter um garoto sentado ao meu lado, geralmente eu os repelia e isso era agradável. Ter um garoto sentado tão perto me fazia pensar que eu estava longe de ser uma garota normal, e que talvez eu gostaria de ser uma delas… Na verdade nada na minha vida era muito normal.

Nós ficamos ali, sentados em silêncio, dividindo um velho MP3. De olhos fechados e com a cabeça recostada na parede, ele parecia confortável e seguro de si. E para a minha surpresa cantarolava baixinho Yesterday.

Estava quase fechando os olhos e começando a relaxar quando passos se aproximaram de nós.

— Paulo, sua turma não está no laboratório de informática? – sobressaltado ele abriu os olhos e olhava Glória com a mesma cara de espanto que eu deveria estar fazendo.

Glória era a coordenadora de pátio do colégio. Ela não precisava fazer esforço para soar séria e brava, sua face já fora lapidada por Deus com esse propósito e cumpria com perfeição.

— A professora me liberou mais cedo para o recreio, Glória.

— Por que?

—Ora, porque eu terminei o trabalho primeiro.

— Bom, posso perguntar isso a Rita, tenho certeza que ela lembrará se te liberou ou não. E você mocinha, por que está fora de sala?

— Estou de aula vaga, Glória. —  lembrei que havia uma outra turma do primeiro ano, a M3, que estava de aula vaga.

— De que turma você é?

— Do 1º m3.

— Ah, aquela sonsa da Lídia faltou de novo, né?

Assenti, embora não tivesse a mínima ideia de quem a Lídia fosse. Minha professora de biologia era outra, e ela deveria estar falando de algumas células neste momento.

— Então deem o fora daqui! O sinal de recreio já vai bater.

Aliviada aceitei a mão de Paulo para levantar e permanecemos de mãos dadas enquanto corríamos pelos corredores da escola até chegar ao pátio. Ele ria de chorar.

— O que foi? — perguntei.

— Nunca fiz isso antes!

— O que? Acabar com o esconderijo dos outros? —era o que ele tinha acabado de fazer.

— Não, mentir para a Glória!

— Viu? Isso é ser nerd!

— Posso arrumar outro.

— Outro o que?

— Outro esconderijo.

— Duvido.

— Ah, é? Deixa só o sinal bater.

Quando o sinal do recreio tocou e milhares de pessoas passaram por nós, Paulo apertou a minha mão —  que ele ainda não havia soltado — e me arrastou contra a multidão. Nós voltamos pelos mesmos corredores que havíamos passado há pouco, mas desta vez Glória estava no pátio monitorando o comportamento dos alunos.

Passamos pela biblioteca e entramos em um corredor que eu ainda não conhecia. Havia duas portas de cada lado e em todas adesivos brancos anunciavam que eram laboratórios.

Paulo tirou do bolso da sua calça jeans um molho de chaves e abriu a segunda porta do lado esquerdo do corredor.

— Aqui está o seu novo esconderijo, Hanna.

***

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Semana que vem tem mais!

1 comentário sobre “Hanna, capítulo II”

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