Hanna, capítulo IV

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Sinopse:

Enquanto voltava de uma festa de aniversário com o irmão, Paulo vê uma garota da escola sendo arrastada aos berros por um homem barbudo. Sem saber de onde a sua coragem veio, o rapaz de 17 anos, desce do carro e tenta ajudar a garota. A garota é Hanna, mais conhecida em sua escola como Canhão. Hanna só é vista escondida entre camadas de roupa, que funcionam de forma tão perfeita quanto um forte em volta de um castelo. Hanna é enigmática e misteriosa. Disposto a desvendar os segredos de Hanna, Paulo se aproximará sem ter a mínima ideia do que o futuro lhes reserva. Um capítulo novo por semana.

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Capítulo IV
Hanna

O cheiro dos cigarros da minha mãe ainda estão impregnados nas paredes e no ar de nossa pequena casa num bairro suburbano, mesmo que nenhum cigarro tenha sido acesso aqui nos últimos três anos. Há quatro anos minha mãe descobriu que tinha câncer de pulmão e só viveu mais um ano com a doença.

Embora aquele tenha sido um ano horrível, em que minha mãe negligenciava o tratamento enquanto continuava fumando, ela parecia estar cada vez mais perto da sua liberdade, e eu tive um pouco de inveja dela.

Durante anos disse que além de se matar, ela acabaria me matando e a Jo – minha meia irmã – também, mas estar com aquele rolinho branco nas mãos parecia ser a única coisa que fazia com que minha mãe suportasse os dias tórridos que vivia ao lado de Jorge, meu padrasto. E mesmo sendo horrível não havia nada que pudesse fazê-la sair daquela casa, desistir daquele casamento idiota.

Desde que eles resolveram morar juntos, há 10 anos, eu tentei tudo que podia. Fiz greve de fome, não ficava na escola, fazia pirraça na frente de todo mundo. Tentei fugir de casa pelo menos 10 vezes e em uma delas fiquei desaparecida um dia inteiro, mas toda vez Jorge me encontrava e me dava uma surra diferente.

Mamãe dizia que eu precisava ser compreensiva, que em breve eu me acostumaria com meu novo pai, e que ele só me batia porque eu havia aprontado primeiro, só que não era bem assim.

Embora aos cinco anos eu não entendesse muito das coisas sabia que aquele casamento não estava muito certo. Jorge sempre chegou muito tarde, mesmo deixando o trabalho às 17 horas, como todos os outros pais do bairro que trabalhavam na mesma concessionária de água e esgoto da cidade.

Seu uniforme cinza estava sempre exalando o cheiro forte de alguma bebida e com as pernas bambas ele tropeçava pelos móveis da casa. Todas as vezes que eu ainda estava acordada quando ele chegava, era obrigada por sua voz grossa e demoníaca a entrar para o meu quarto e fechar a boca, enquanto ele arrastava minha mãe para o quarto, e em todas às vezes gritos costumavam sair de lá.

Nunca houve paz naquela casa, todo mundo estava sempre com medo. Mamãe tinha medo de fazer algo que desagradasse o marido, Jo idolatrava o pai e fazia de tudo para que ele gostasse dela, esquecendo-se de todas às vezes que ele gritava com ela e batia sem motivos, e eu tinha medo de ver uma tragédia acontecer antes de sair de casa, ou mesmo depois que saísse.

Só que eu nunca imaginei que a minha mãe fosse embora tão cedo. O câncer veio e a levou, nada mais.

Ela não falava do meu pai ou dos seus parentes, então ao morrer só havia duas opções, Jorge me entregava para o juizado de menores ou ficava comigo.

Sinceramente, na época eu não sabia o que era pior! Viver com Jorge era horrível e poder estar numa casa longe dele parecia ser a liberdade que sempre desejei, mas e viver longe da minha irmã? Jo só tinha seis anos quando mamãe se foi, o que seria dela se ficasse com Jorge sozinha? Ele sempre foi bipolar, um dia queria abraçá-la, no dia seguinte gritava com mamãe e a culpava por ter colocado mais uma boca no mundo para alimentar.

Eu só tinha 12 anos, mas implorei que ele me deixasse ficar. Poderia cuidar de Jo, levá-la a escola e buscá-la, cuidar da casa. O convenci de que ela sentiria muito a minha falta, já que não teria a mamãe também, e com muito custo ele me disse sim. Ele não foi misericordioso, só pensou no quão bom isso seria para ele, não precisaria gastar mais dinheiro contratando alguém para cuidar dela. Sobraria mais dinheiro para beber.

Mas agora se eu pudesse passaria as tardes perdida em alguma biblioteca ou no laboratório do grêmio, já que tinha acabado de ganhar a chave, só que tinha que voltar logo para casa e bancar o papel da minha mãe. Nada nunca podia estar fora do lugar! Nada de poeira nos móveis, nada de copos ou vasilhas em cima da pia, nem TV ligada se ele não estivesse em casa. Ele não enchia a barriga de duas vagabundas para que elas ficassem a toa o dia inteiro.

Jo continuava não entendendo o que acontecia. Aos nove, ela estava preocupada em brincar de casinha com a filha da vizinha e ler os contos de fada e gibis que pegava na biblioteca da escola. Jorge ainda gritava com ela, mandava que ela calasse a boca enquanto ele assistia ao Jornal Nacional e dizia que se ela aparecesse grávida arrancaria o feto com as próprias unhas, porém nada mudava o amor que ela sentia por ele.

Ela ainda mostrava cada um dos desenhos que fazia na escola e pedia que ele a ajudasse com a lição de casa. Uma vez por semana, quando ele não havia enchido a cara o suficiente ainda, ela conseguia ter a atenção dele numa boa para fazer as lições de matemática. Eram nesses poucos dias em que estava bem que ele a comprava e a colocava contra mim.

Ela nutria a fé de que ele só ficava bravo por minha causa. Se ele não quisesse fazer o dever de casa, provavelmente foi porque eu coloquei sal demais no feijão. Se ele chegasse em casa bêbado foi porque eu o desrespeitei no dia anterior. Tudo era minha culpa e eu estava cansada daquilo!

Nesses últimos dias, enquanto sentava no antigo laboratório e mexia naquelas caixas do grupo de teatro, me sentia outra pessoa. Eu ainda era a garota estranha que andava com milhares de peças de roupa e ainda tinha que ser a adulta, responsável e dona de casa quando deixasse o ônibus e abrisse a porta da casa nº6, mas ali, com todas aquelas peças de roupa nas mãos e com Paulo sentado em uma das mesas fingindo fazer a lição de casa, eu me sentia uma garota mais comum, com uma vida normal.

Talvez se eu trocasse todas as calças jeans que vestia e aquelas blusas de frio, por apenas uma calça jeans e uma blusa de margaridas que vi em uma das caixas, e ao invés das Marias-chiquinhas deixasse o cabelo solto, poderia me imaginar indo para uma casa onde houvesse um pai e uma mãe com problemas normais, que discutissem por ele ter comprado outro carro sem avisar ou com uma mãe na crise dos quarenta que estivesse disposta a começar uma faculdade e arrumar um emprego novo. Jo e eu podíamos brigar por ter que dividir o mesmo computador ou a TV a cabo.

Eu só queria a normalidade.

Porém, eu estava em uma casa que fedia a fumo, catando as meias sujas que Jorge havia deixado jogadas no chão da sala na noite anterior. Em uma das almofadas do sofá havia uma mancha de baba que fedia a cerveja e eu teria que lavar as sungas sujas dele mais tarde.

Peguei o MP3 – último presente que a minha mãe me deu – em um dos bolsos da mochila e torci para que a pilha durasse pelo menos até o fim daquele dia. Provavelmente Jorge chegaria pior esta noite.

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