Mesmo sem entender, eu confio em Ti

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[Este texto é um conto ficcional!]

Eu estava sentada em uma cafeteria há duas quadras do meu trabalho quando meu celular tocou. Era Ana, uma dessas amigas da época de escola que a gente nem lembra por que a amizade começou, mas que desde então pede aos céus todas as noites que não permita que ela acabe. Segundo ela, um e-mail confirmando a nossa presença entre a plateia do programa “Música Boa ao Vivo” da próxima semana havia acabado de piscar na tela do seu computador. Ana estava eufórica! Além de fã do programa, ela era apaixonada pela maioria dos cantores que estariam presentes. Então, eu não pude dizer não. Na verdade, eu não teria nada de melhor para fazer na semana seguinte mesmo, então por que não ir? Ana queria se divertir e eu esquecer das pancadas que vinha levando da vida.

Ir à shows, enfrentar filas de baladas nas sextas-feiras à noite, beber mais um copo de Vodka para tentar esquecer os problemas de casa, essa era a minha rotina nos últimos dois anos. Nos últimos dois anos. Desde que descobri o caso extraconjugal do meu pai, suas altas dívidas e a vida dupla que ele vinha levando. Se não fosse o suficiente, durante uma manhã no trabalho recebi um telefonema da minha mãe dizendo que meu pai havia sofrido um acidente de carro. A perícia constatou que a perda do controle do veículo não fora acidental. Suicídio, essa foi a escolha do meu pai. Mas a palavra suicídio sempre foi muito ácida, traumática, e a minha mente preferiu registrar a palavra acidental. Imaginar que o meu pai estava apenas indo resolver um problema do trabalho e perdeu o controle do veículo em uma curva perigosa era muito mais fácil de entender, do que tentar engolir a azeda, dolorosa e amarga verdade — que gritava — que ele não queria mais voltar para casa, que não sabia mais lidar com os problemas que criara e que não encontrava mais sentido na vida…

Ele se foi e parte de mim foi junto. A minha parte teimosa e inocente que acreditava de todo o coração que a minha família tinha jeito se foi. A moça que tinha fé que uma hora o pai se tocaria, que veria que as pessoas que mais o amavam estavam dentro da casa dele e não no mundo lá fora, essa moça morreu. A moça que acreditava quando Deus dizia que tudo ia ficar bem, bem essa moça viu que as coisas não ficaram nenhum pouco bem. O sentido, a leveza, a paz que eu sentia, tudo se foi. E eu tentei recompensar a dor que sentia fazendo o máximo de coisas possível, ocupando o meu tempo com tudo o que podia e nem sempre o que fazia me trazia orgulho.

Na noite do show, precisei levar roupa e maquiagem para o trabalho. Me troquei no banheiro apertado do shopping e de lá Ana e eu pegamos um táxi até a locação do programa. Durante os 40 minutos de trajeto Ana não parou de falar sobre o cara da semana, um rapaz que havia aparecido no seu inbox do Facebook, comentou todas as suas fotos e a cutucou uma centena de vezes – mesmo que ninguém mais faça isso hoje em dia (Ana achou isso uma gracinha).

Quando o programa começou, a mão de Ana me puxou para dançar algumas vezes e eu fui tomada pelo ritmo. Em alguns momentos fiquei totalmente entediada. Estava querendo ir embora, mas Ana não sairia dali enquanto não acabasse! Consegui ir ao banheiro e ao lado de outras tantas garotas retoquei a maquiagem em frente ao espelho. Diferente das outras meninas em meus olhos não haviam brilho algum e meus lábios não doíam de tanto sorrir.

Entrei num dos cubículos e fechei a porta. Limpei a tampa do vaso e sentei sobre ela. Lágrimas escorreram, enquanto meu peito soluçava. Todo o vazio que eu vinha sentindo nos últimos meses resolvera surgir logo ali, logo naquela noite. Não lembro quanto tempo fiquei ali, só lembro que ao voltar para a gravação do programa meus olhos ardiam e eu pensava em uma boa justificativa para dar a Ana.

Parei ao lado dela e fingi procurar bolinhas no meu vestido de renda até que uma canção chamou a minha atenção. Anitta, aquela do Show das Poderosas, começou a cantar “Mesmo sem entender” para a minha imensa surpresa. Naquela noite eu não tinha a mínima ideia do por que ela quis colocar aquela música no roteiro do programa, mas eu a recebi como um presente do próprio Deus. E entre lágrimas ouvi a minha mãe dizendo: “Deus escolhe as formas mais inusitadas pra falar com a gente, minha filha”.

E ali, em meio aquela pequena multidão eu me entreguei a Jesus mais uma vez. Entreguei a chave do meu coração novamente para Deus — chave esta que eu jamais deveria ter tirado de Suas mãos. Quando o meu mundo desmoronou, quando eu perdi tudo que eu mais queria ver dar certo, acreditei nas mentiras contadas ao meu coração. Acreditei que o Senhor tinha me abandonado. Acreditei que eu estava completamente perdida. Por que eu deverei obedecer a um Deus que não me deu o que eu mais precisava? Por que ele não fez o freio funcionar? Por que Ele não aplacou a dor do meu pai? Por que Ele não fez o milagre que Ele vivia dizendo que iria fazer? E eu finalmente entendi… Deus não fez porque ao invés de entregar a chave do seu coração a Deus, meu pai quis cuidar das coisas sozinho. Meu pai preferiu o adultério, as bebidas, as dívidas e sabe lá quantos mais vícios. Quando ele acreditou que nada mais daria certo, viu na morte a única solução para aplacar sua dor. Meu pai fugiu do único que poderia ajudá-lo de verdade.

Eu não percebi, até aquele momento que eu estava seguindo os mesmos passos do meu pai. Eu estava escolhendo o mundo do vazio, dos prazeres temporários e das histórias enganadoras. Eu estava me satisfazendo com coisas desse mundo, enquanto o meu coração ansiava pela eternidade. Foi ali naquele show que o meu coração se rendeu. Deixei o show antes que ele acabasse, deixando uma Ana entristecida para trás, mas eu precisava ir embora, precisava ir para casa. Tudo o que eu queria era entrar no meu quarto, fechar a porta, abrir minha Bíblia e dobrar o joelho. Eu estava morrendo de saudades do meu Aba!

Até aquele dia. Até aquela noite eu estivera perdida, mas Deus usou um momento inesperado para me dizer que Ele ainda estava ali, de braços abertos para mim!

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