Tudo aquilo que eu sinto, mas não digo

Ella nunca perdeu a mania de colecionar. Quando criança colecionava bonecas e desenhos, guardou a primeira mecha de cabelo cortado, o lacinho de cabelo rosa favorito, as fotos com as primeiras professoras. Mas enquanto crescia a coleção de Ella deixou de ser colorida e divertida, para ser cinzenta e entristecida. Ella colecionou gritos, palavras ofensivas e insultos. São sons dolorosos, que não estão lá porque ela quer, inconscientemente Ella aperta o play e as fitas cassetes ganham vida em seu coração, lembrando-a do quão inútil, desprezável e feia ela é.

— Por que você fez isso? Você é burra Ella?

— Antes você nem tivesse nascido…

Ella também colecionou as imagens dos momentos em que foi traída, abandonada, humilhada, esquecida. São gifs que repetem constantemente em sua cabeça levando embora a esperança de dias melhores. Ella guarda muitas coisas no coração e o seu maior problema é não conseguir se abrir com ninguém. É um baita problema, porque quanto mais coisas, momentos e dores obtém lugar em seu acervo, mais presa Ella se torna. Ela se sufoca em meio as lágrimas que caem toda noite no travesseiro. Ella tem medo de entrar em novos relacionamentos, prefere passar as manhãs sozinha na escola, do que fazer uma nova amizade e ser traída de novo. Ela tem medo de namorar e casar, receando que o homem de seus sonhos se revele um sósia do pai — agressivo, ignorante e mal.

Ella construiu um mundo dentro de sua cabeça, onde não há dor, dias cinzas e maldade. É pra lá que ela corre sempre que a realidade dói, só que não dá pra correr pra lá sempre e nem sempre estar lá resolve, porque a garota é sempre chamada de volta à realidade. Ella é sensível e sente muito, sente muito mesmo as coisas, só que ela não diz nada para ninguém. Eu me preocupo com Ella, porque qualquer hora dessas ela não vai aguentar mais segurar as pontas e toda dor que há em seu coração, arraigada em tanta tralha, fitas e imagens, vai explodir, causando mudanças em seu mundo real. Talvez Ella mergulhe em uma dor maior do que a que já sente, e o sorriso que ela veste toda manhã não seja mais colocado. Talvez ela se entregue a depressão ou algum vício, tentando suprir suas necessidades… Sinceramente, eu não sei o que acontecerá com Ella, mas sei que esta moça precisa de ajuda. Ella precisa que alguém a veja, que alguém perceba que ela não está bem e que resolva estender a mão, quem sabe até um abraço apertado.

Há muitas Ellas por aí, sentindo demais, guardando tudo. Você tem um coração cheio de amor? Então compartilhe esse amor ajudando uma Ella.

Tema do mês: “Tudo aquilo que eu sinto, mas não digo.”

1 comentário sobre “Tudo aquilo que eu sinto, mas não digo”

  1. A gente sempre tem a chance de ajudar, basta olhar para o lado humano do outro, não é mesmo?
    Belo texto. Espero que ele inspire muita gente! 😀

    Beijos,
    Fê Rodrigues

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