Você é linda, feio é o preconceito

Toda vez que entrava na sala, ouvia as risadinhas das meninas, que viravam os olhos e cochichavam baixinho à medida que ela passava. Quando sentava, bem no fundo da sala, ouvia os comentários maldosos dos meninos do fundão. Ela não conseguia entender qual era a graça daquilo, por que os adolescentes podiam ser tão maus. Ela torcia, a cada manhã, para que as horas passassem mais depressa e ela pudesse voltar logo para casa, e quem sabe assim a adolescência também não corria, né? Ela podia crescer logo e deixar todos aqueles comentários para trás…

No começo Manu não sentia nada, largava pra lá. Ela sabia que tinha pés grandes mesmo, que o nariz não era fino como o das outras meninas, e que sua pele negra não era tão bonita quanto as das meninas mais clarinhas. Ela acreditava que por ter ouvido a infância toda frases maldosas sobre o seu cabelo – “Cabelo de bombril!”, “Cê tá um sol hoje em, Manu!”, “Se a Manu virar de cabeça pra baixo dá pra varrer o chão! HaHa” – já estava forte o suficiente para enfrentar a maldade de qualquer outra criança ou adolescente, mas quanto mais isso ia se repetindo com o passar dos anos, pior Manu ficava.

Ela já não gostava mais da imagem que via no espelho. Não queria aquele nariz. Não queria aquele tom de pele. Não aquele cabelo. Por que ela tinha que ser assim?! A menina já não tinha mais vontade de ir a escola, aprender já não era tão divertido quanto antes, e ela não conseguia fazer muitos amigos lá também, porque logo eles se voltavam contra ela. Quem queria ser amigo da menina menos popular da sala? Ou a mais zoada? Os professores também não conseguiam perceber o problema, apesar de falar tanto em combater o racismo e o preconceito. E Manu também não tinha coragem de falar o que vinha acontecendo com os pais, porque a mãe estava sempre muito ocupada tentando cuidar de tudo, e o pai ia achar aquilo uma grande bobeira. Então a garota foi ficando cada vez mais silenciosa, cabisbaixa e tristonha, perdida em seu problema que ela cria ser pequeno demais para buscar ajuda.

Até que um dia Manu conheceu Alice, uma aluna nova que chegou à escola. Alice tinha um cabelo blackpower enorme, com as pontinhas pintadas de rosa. Alice não estava nem aí para os comentários maldosos que ouvia das meninas e dos garotos da sala, e não demonstrava ficar entristecida. O que deixou Manu intrigada. Em uma manhã, enquanto assistiam os meninos jogarem futebol na aula de educação física, Alice se sentou ao lado de Manu, e sorriu pra ela.

– Oi. – Manu disse e sorriu de volta.

– Oi, Manu! Eu sou a Alice. – ela estendeu a mão, e Manu apertou.

– Não dói? – Manu tomou coragem para perguntar.

– O quê?

– Os comentários deles? – ela apontou com a cabeça para os colegas.

– É claro que dói, mas eu sei que nada disso é verdade.

– Como assim?

– Eu sei que não sou feia, na verdade eu aprendi que sou linda, assim do meu jeito, e você também é. Nós não precisamos ser brancas, magras, com o cabelo escorrido. Somos lindas assim, negras, com o cabelo crespo, com os lábios carnudos. As meninas brancas são lindas, assim como as negras e as pardas também são! Só fico triste por eles não terem entendido isso até agora. Isso me dá pena.

– Isso é tão bonito de dizer, mas eu me esqueço fácil.

– Mas não precisa esquecer, Manu. Posso te contar uma coisa?

– Pode.

– Não sei se você sabe, mas muito antes de nascer você foi planejada por alguém, foi desenhada e colorida. Deus escolheu o tom da sua pele, o tamanho do pé, o desenho dos cabelos, a curvinha do sorriso. As pessoas vivem criando padrões ridículos de beleza, mas a verdade é que eles são apenas padrões, vem e passam. Uma hora a magreza volta a ser apontada como feia, e as gordinhas são valorizadas. O problema desses padrões é que eles valorizam apenas um grupo de gente, e magoam as outras. E as pessoas fingem que isso não é um problema, mas é Manu.

Alice tocou no meu ombro e me lançou um sorriso ainda maior.

– A gente pode começar a lutar contra o preconceito das pessoas sendo nós mesmos. Você pode usar o cabelo como quiser, usar maquiagem ou não, usar um tênis escandaloso ressaltando os seus pés! E daí se as outras pessoas acreditam no padrão? Não podemos deixar que elas nos façam acreditar nesses padrões ridículos, nem que elas roubem o nosso sorriso. Você é linda, Manu! Feio é o preconceito. Não deixe que os padrões de beleza da sociedade matem o seu amor próprio, que te impeçam de ser você mesma.

***

O preconceito é real, mas isso não significa que seja natural. O preconceito foi construído pela humanidade, e da mesma forma pode ser derrubado. Você é linda do seu jeito, não importa o que os padrões da nossa sociedade digam. Se você está sendo vítima de preconceito procure por ajuda, converse com alguém e lute para manter o seu amor próprio sempre vivo, ele é fundamental para a afirmação da sua identidade, princesa!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

code