23 de Julho de 2019

Da janela da cozinha era possível ver nuvens carregadas se aproximando das montanhas que cercam a cidade, encobrindo o céu azul e afugentando os pássaros. A ventania ficava cada vez mais forte, e as árvores no quintal batiam contra o telhado.  

Enquanto fechava as janelas da casa, pude ver os primeiros relâmpagos brilharem entre as nuvens negras, e imediatamente me lembrei da voz de mamãe dizendo: “Tire tudo da tomada!”. Sem poder ligar a TV ou usar a internet, voltei para a cozinha e preparei um café. Sentei em frente a bancada e aproveitei a luz que ainda vinha lá de fora para ler, mas a concentração não era minha companheira naquele fim de tarde. 

Na verdade, assim que a chuva finalmente começou a cair, meus olhos se encantaram mais com as gotas que batiam contra a janela e corriam com rapidez em direção ao chão, do que com a trama da obra que eu tinha em mãos. Deixei a cadeira e caminhei até a janela. 

A vida não parecia muito diferente daquela chuva torrencial. Aquela segunda-feira amanhecera com um sol brilhante, com nenhum indício de que a chuva viria ao fim do dia. A moça do tempo também não falou nada sobre possibilidade de chuva no jornal da hora do almoço. Quantas pessoas teriam saído de casa bem cedinho sem levar um guarda-chuva? Eu mesma não tinha um na bolsa quando saí para trabalhar.  

Nos próximos dias a terra ia amar toda aquela chuva. Os campos ficariam verdes e as flores com mais vida. Contudo, por ora, só se via bagunça lá fora. A varanda que eu tinha lavado no dia anterior ficaria encharcada. As folhas da velha mangueira estariam espalhadas pelo quintal na manhã seguinte, e se a chuva não diminuísse não ia ser incomum ouvir no próximo noticiário que algumas regiões da cidade estivessem sofrendo com alguns alagamentos (não é exagero, é descaso público mesmo). 

Com certeza a cidade foi pega de surpresa com toda aquela chuva, e quantas vezes a vida não parece nos pegar de surpresa também? Bem, era assim que eu me sentia há tempos. A cada dia uma surpresa nova, e na maioria das vezes não eram lá muito boas. Algumas áreas da minha vida, simplesmente, decidiram estagnar. E pronto. Por mais que eu tentasse, nem todos os dias eu tinha forças para olhar com fé para a minha realidade. Não conseguia olhar além do que me cercava para ver tudo aquilo que Deus havia me prometido. 

E ali, diante daquela janela, vendo a chuva bagunçar todo o meu quintal, eu me sentia uma bagunça também.  

O som estridente de uma trovoada varreu a casa e me fez correr da janela. 

Quando eu era criança, minha mãe me fazia sentar quietinha no sofá durante as tempestades. Embora eu quisesse correr, gritar, brincar ou desenhar — provavelmente descalço ou com alguma coisa que atraísse os raios —, mamãe me tirava do perigo sentando-me no sofá. 

— Vamos ficar quietas, Alice. Vamos ouvir a chuva. — dizia.  

E eu sempre perguntava as mesmas coisas: 

— Por que o trovão é tão alto, mamãe?  

— O que é o trovão? 

— Por que eu não posso continuar usando minha tesoura? 

E mamãe com toda paciência do mundo dizia: 

— O trovão é a voz de Deus, Alice. Vamos ficar quietinhas para ouvi-Lo.  

E nós ficávamos quietas até a chuva passar, ouvindo o Senhor falar. 

Nessa altura da vida eu já sabia que o trovão não é a voz de Deus, mas bem que eu gostaria que de alguma maneira Ele falasse comigo naquela tarde…  

Deixei a cozinha e caminhei em direção ao quartinho que eu transformara em escritório no verão passado. Minha bíblia ainda estava aberta em cima da escrivaninha, onde eu a deixara na noite passada, sem forças para fechá-la. A ventania que antecedera a chuva havia feito com que as páginas voassem, e alguns papéis cheios de rabiscos e meditações estavam espalhados pelo chão.  

Aquela parecia uma boa hora para sentar diante do livro Sagrado. Aliás, ainda havia alguma luz adentrando pela janela.  

Antes que eu pudesse folhear a procura de algum livro ou capítulo, as palavras desafiadoras de Deus a Jó chamaram a minha atenção. Eu sempre ficava intrigada pela maneira como Deus questionara Jó:  

— Onde você estava quando eu lancei os alicerces do mundo? Quem definiu as dimensões e extensões da terra? Diga-me, você deve saber. Você já deu ordens ao sol para que houvesse o amanhecer? Você já viu o depósito onde os relâmpagos ficam guardados? Já abriu um canal para fortes chuvas? Definiu o percurso dos relâmpagos? Fez a chuva cair sobre a terra? 

Jó não fizera parte de nada disso, mas ainda assim queria compreender tudo, tim-tim por tim-tim, do que Deus vinha fazendo em sua vida. Deus chega a dizer a Jó: “Claro que sabe de tudo isso! Afinal, já havia nascido antes de tudo ser criado e tem muita experiência!” (38:21) 

Claro que Jó não sabia de nada… E parece que o homem não aprendeu muito, ali estava eu alguns milhares de anos depois fazendo a mesma coisa: ansiando compreender o que Deus vinha fazendo e se possível acelerar algumas partes.  

O céu brilhou de novo com mais um relâmpago e assim que o som do trovão encheu a casa, eu compreendi. Eu podia ouvir a voz de Deus dizendo em meu coração:  

— Você não precisa compreender tudo. Apenas precisa confiar em Mim!  

Eu não tinha controle sobre a chuva. Eu não podia fazer o sol nascer, nem garantir que as minhas rosas iriam brotar de novo. Se quer podia ter certeza de que eu amanheceria amanhã, mas ainda assim eu queria ter o controle sobre a minha vida…  Ali estava Deus me dizendo que eu não tinha o controle sobre nada e que eu não precisava levar uma vida angustiada tentando obter o controle. Eu só precisava soltar o controle nas mãos de quem de fato pertencia.  

Não demorou muito para que Ele trouxesse outras palavras ao meu coração. As palavras de Jeremias ecoaram em minha memória:  

“Ainda ouso, porém, ter esperança quando me recordo disto: O amor do Senhor não tem fim! Suas misericórdias são inesgotáveis. Grande é sua fidelidade; suas misericórdias se renovam cada manhã. Digo a mim mesmo: ‘O Senhor é minha porção; por isso, esperarei nele!’. O Senhor é bom para os que dependem dele, para os que o buscam. Portanto, é bom esperar em silêncio pela salvação do Senhor.” — Lamentações 3:21-26. 

Eu precisava aprender a trazer a memória aquilo que me dava esperança.  

Olhei novamente pela janela. Por trás de toda aquela chuva, ainda havia um céu azul. Um céu azul que anunciava que bons dias viriam. Ter fé significava olhar além de toda aquela chuva e ver o que os olhos naturais ainda não podiam ver. Ter fé significava olhar além daquela chuva e enxergar manhãs de verão. Isso era confiar em Deus de verdade, isso era o que eu precisava fazer.  

Escrito por: Thaís

Você também vai gostar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

receba as novidades


Inscreva-se no formulário ao lado e receba conteúdos exclusivos em seu e-mail.
 
 

Acompanhe os vídeos no youtube


desenvolvido por QRNO