19 de Fevereiro de 2019
Foto de Analise Benevides
Leia este conto ouvindo “Ousado Amor” (no fim de texto temos um vídeo com a música).
Aquela manhã meu coração amanhecera apertado. Ao fechar os olhos ainda podia lembrar com detalhes das minhas escolhas imprudentes do dia anterior: uma mentira aqui, uma palavra pesada ali. Uma coisa eu tinha certeza em meio a correria dos meus dias: há muito tempo eu já não sabia quem eu era e muito menos quem eu era em Deus, ou para Deus
Há meses eu estava ocupada demais para pensar em Deus. Correndo contra o tique-tac do relógio, eu precisava dar conta do trabalho, dos estudos e de casa. No começo pensei que tudo ficaria bem, que mesmo correndo eu conseguiria me manter eu mesma e encontraria um tempo para Deus. Engraçado como de Dono de tudo, Deus passe a lutar por uma vaguinha em nossa agenda. Só uns minutos disponíveis, algumas vezes no mês. Como se fossemos alguém importante! Como se fosse possível ser mais importante do que Ele!
Ao olhar para a minha Bíblia, você não demoraria a entender onde Deus estava em minha rotina: na quarta prateleira da minha estante, tomando poeira. 
Não demorou, em meio a minha rotina, para que minha cabeça ficasse vazia e meu coração solitário. Quando eu dei por mim, já estava procurando soluções para o meu vazio em meio as alternativas desse mundo! O problema é que nada pode saciar o vazio por completo. Todas as soluções são passageiras, como viver correndo atrás do vento. E a cada nova solução, fosse a maratona de uma série, uma panela de brigadeiro ou um novo relacionamento, no fim eu ficava ainda mais vazia, e cada vez mais distante de Deus. E com uma vergonha maior a cada dia, afinal, Deus não é alguém a quem se pode enganar!
Tudo isso martelava em minha cabeça quando finalmente consegui sair do trabalho para o almoço. Sem ânimo para ir muito longe, comprei um Subway e caminhei para o parque no centro da cidade, à procura de um banco disponível. Caminhei pelas sombras de vários pés de Ipê até encontrar um banco vago. Poucos minutos depois, enquanto eu lutava com o embrulho do meu sanduíche, um senhor sentou ao meu lado. Ele sorriu pra mim ao mesmo tempo em que repousava uma velha Bíblia no colo, e logo em seguida tirava a boina cinza que cobria os cabelos que um dia foram pretos. 
À nossa frente, crianças brincavam no parquinho, empurrando umas as outras na fila do escorregador, correndo para lá e para cá, rindo umas das outras. 
— Miguel, não balance seu irmão com tanta força! Você o fará cair! — repreendeu uma mãe sentada em um banco próximo ao nosso.
Mas foi só ouvir a mãe, que o garoto Miguel balançou o irmão com ainda mais força.
— Miguel, não me faça ir até aí! — não se passaram dois minutos, e lá ia a mãe até os meninos.
Ao meu lado, o senhor riu.
— Não importa o quanto o tempo passe, eles continuam assim. — o senhor comentou, ainda com um sorriso no rosto. 
— Teimosos, o senhor quer dizer? — falar com estranhos sempre foi uma das regras da minha mãe que mais desobedeci. 
— Isso mesmo, menina! E quanto mais sabemos que uma coisa é errada, mais queremos fazer. Você não acha?

— Verdade… — pensei nas minhas próprias escolhas nos últimos tempos e em quantas vezes eu havia ignorado a voz de Deus e os seus ensinamentos preferindo acreditar que eu tinha o melhor pra mim e que sabia o que estava fazendo.

— Quando são os nossos pais que nos dizem uma coisa, então… — ele riu de novo. — Eu tive cinco filhos, sabe menina? E por mais maravilhosos que meus filhos sejam, eu os vi me desobedeceram muitas vezes, por mais que eu só os desejasse o seu bem.

— Acho que é muito fácil nós termos a ilusão de que sabemos tudo e podemos controlar tudo a nossa volta. — comentei.

— Acho que sim. Mas se tem uma coisa que eu aprendi ao decorrer da minha vida, é que nós não temos controle de nada. E é por eu não estar no controle das coisas que eu estou aqui hoje, sabia?

— É mesmo? — Sua fala me deixou intrigada.

— É, sim… Hoje, desde que eu acordei, uma voz no meu coração não parava de me dizer: Parque Fernando Passos. Parque Fernando Passos. Toda vida, toda vida a voz dizia. Mas eu não sabia o que isso queria dizer, afinal eu não tinha nada pra fazer por essas bandas. Então eu resolvi orar, porque sozinho eu não ia descobrir a resposta. Foi então que Deus me disse que eu devia vir aqui, porque Ele queria que eu desse algo para uma pessoa que estaria aqui.

A fé daquele senhor tocou o meu coração, e também me deixou curiosa.

— O senhor encontrou a pessoa? — perguntei.

— Sim, encontrei! — ele sorriu, todo feliz.

— E o senhor entregou a ela o que Deus mandou?

— Ainda não, vou entregar agora. — antes mesmo de completar a frase, o senhor estendeu a Bíblia que tinha em seu colo em minha direção.

— Deus mandou que o senhor me entregasse isso?

— É. — ele sorriu ainda mais, fazendo com que até seus olhos sorrissem.

Meu coração se acelerou e um frio surgiu em minha barriga.

— Como… Como o senhor sabe que sou eu? Pode ser qualquer outra pessoa.

— Não, é você. Sabe, eu entendo o seu receio e desconfiança. Eu também temi hoje de manhã quando Deus me disse para fazer isso. Perguntei a Ele como eu saberia quem seria a pessoa, então Ele me disse que você estaria sentada diante de um parquinho, e que eu a reconheceria pela mochila de rosas que você carrega.

Olhei para a mochila marrom com estampa de rosas que estava ao meu lado. Quase não a trouxe hoje de manhã. Estava trocando as coisas de lugar, passando para outra bolsa, quando me lembrei que precisaria passar na Biblioteca hoje a tarde e pegar uns livros novos.

— Nossa… Isso nunca aconteceu comigo antes! — peguei a Bíblia da mão dele. — Ele mandou o senhor me dizer alguma coisa?

— Apenas que eu te desse a Bíblia. — ele colocou a boina que havia deixado ao seu lado no banco sobre os cabelos e começou a se levantar.

— O senhor já vai?

— Já, querida. Acho que você e Deus precisam passar um tempo a sós. Foi um prazer conhecê-la. — ele acenou e começou a se afastar.

— O prazer foi meu!

O frio da minha barriga sumira, e eu senti um calor confortável crescendo em meu peito. Minha vontade era correr e dar um abraço bem apertado naquele senhor, mas ele já sumira pela estradinha de Ipês.

Analisei a Bíblia que tinha no colo. Era uma Bíblia antiga, de capa dura. Ao folheá-la, além do texto bíblico encontrei inúmeras marcações, comentários e ilustrações. Alguém passara muito tempo com ela e com Deus.

Havia um marca página entre as flores, com os mesmos desenhos de rosas da minha mochila. Abri a Bíblia na página marcada e fui pega de surpresa ao ver meu nome escrito entre as rosas do marca página. Alice. Enquanto alisava o meu nome, minha visão ficou embaçada pelas lágrimas. Sequei as lágrimas que começaram a cair, e fitei as páginas a minha frente.

A Bíblia estava aberta no livro de Oseias, bem no finalzinho do último capítulo, e havia um texto escrito ali, em uma bela letra cursiva.

Eram vários os pecados que estavam sobre Israel, e Deus se enfurecia em ver o quanto se afundavam no pecado, esquecendo quem era o seu Deus e o quanto haviam sido cuidados desde o Egito. Em Oseias fica claro que cada pecado possui uma consequência e ela não deixará de ser cobrada. Todavia, é possível ver que Deus não desistiu do seu povo, ao contrário, Deus se propôs a perdoá-lo e lhe fez promessas.
Deus decidiu dar uma nova chance a Israel mesmo sabendo quantas vezes eles fugiram dEle. Mas é isso que a graça faz, concede novas chances ao coração arrependido, uma aposta de auto risco. 
“Vamos nos dedicar mais e mais ao Senhor! Tão certo como nasce o sol, ele virá nos ajudar; virá tão certamente como vêm as chuvas da primavera que geram a terra.” (Os 6:3)

Uma aposta de auto risco…. Eu era uma dessas apostas! Quantas vezes falhei com o Senhor nos últimos anos? Quantas vezes me esqueci de tudo o que Ele fizera por mim? Quantas vezes preferi ser dona do meu tempo e ditei o que era mais importante? Quantas vezes quis me reaproximar, mas temendo, pensei que Deus não me aceitaria como antes? E mesmo tendo errado tanto… aqui estava Ele, aqui estava Deus dizendo o quanto me ama.

Agora eu entendia porque eu lembrara da biblioteca ao tentar trocar a bolsa, também compreendia por que eu amanhecera com o coração apertado, lembrando o quanto eu estava vazia e distante de Deus… Eram pequenos sinais do cuidado de Deus, era a Sua voz me chamando para voltar para Seus braços de amor.

Naquela noite, eu tinha uma pilha de textos para ler, mas antes de iniciar qualquer um deles corri até minha estante, peguei a Bíblia na quarta prateleira, tirei a poeira e sentei com ela na escrivaninha. Não consegui dormir até concluir o livro de Oseias. A cada capítulo uma certeza crescia em meu coração: Deus me amava e estava disposto a lutar por mim mesmo que eu fosse uma aposta de auto risco.

Escrito por: Thaís

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One Comment

  • Unknown

    Eu acompanho o site a mais de 2 ano, mas nunca comentei aqui. Hoje, depois de ler esse conto, o Espírito Santo pediu pra que eu escrevesse.
    Eu nem consigo contar quantas vezes eeu chorei para o Senhor e Ele trouxe consolo ao meu coração através de seus textos, ou quantas vezes ele me ensinou através da suas palavras, do seu testemunho.
    Enfim, hoje queria agradecer a Deus por sua vida, e por esse ministério lindo que Ele te deu.Que Deus continue te inspirando e abençoando sua vida, oro pra que Ele realize os lindos planos que Ele tem pra sua vida. A sua fé tem eedificado a minha e a de muitas outras pessoas, e eu agradeço muito a Jesus, por sua vida. Obrigado.

    De outra princesa dEle❤

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