1 de Fevereiro de 2015



Olá, meninas! Como vocês estão? Espero que bem! Como combinado temos mais um capítulo da história de Ariel hoje. Espero que vocês gostem e sejam tocadas através dele. Ah, não esqueçam de me contar a opinião de vocês, okay? É importante demais *-*

Capítulo 7

Aquela
manhã foi tão pensativa quanto deveria ter sido produtiva, ao mesmo tempo que
montava gráficos na aula de estatística se perdia nas lembranças da noite
anterior, a mensagem do pastor continuava a martelar em seu coração e algo lá
dentro a pedia constantemente para que fizesse mais viagens como a que fez na
noite anterior.

Ir à
igreja deixou Ariel tão em paz que ela se quer se prendeu as mensagens de
Felipe, quando chegou em casa colocou o celular no criado mudo e ele ficou ali
até a hora de ir para à escola. Ela não se lembrou dele até a volta para casa,
enquanto estava sentada na van o tirou da bolsa e foi checar as mensagens.

“Sério?
Não podemos nos ver depois? Bem rapidinho!”

“Hein?”

“O que
me diz?”

“Cadê
você, raio de sol?”

E mais
umas 50 mensagens de Felipe. Ariel se perguntou por que em nenhuma delas ele
não se convidou para ir à igreja com ela, teria sido uma boa ideia.

Camila
também havia deixado uma mensagem, às 18:30:

“Amiga,
sorry! Não vou mais a igreja hoje! Minha avó passou mal e estou indo para
Esperança visitá-la. Deixamos pra próxima. Kiss :*”

Antes de
responder a Felipe, Ariel decidiu responder a amiga perguntando como estava a
sua avó e dizendo que tudo bem ela não ter ido, afinal não foi tão ruim quanto
ela imaginou que seria.

Para
Felipe ela só enviou um “oi”, mas a resposta não veio imediatamente. Ariel
desceu da van e caminhou até em casa, assim que estava chegando ao portão uma
moto parou bem próxima à calçada. Felipe.

– Oi,
princesa! – disse enquanto tirava o capacete.

– Oi,
Felipe. – Ariel disse sorrindo e se contendo, sua verdadeira vontade era largar
a mochila no chão e correr para os braços dele.

– Você
não respondeu as minhas mensagens ontem. – ele fez beicinho.

– Fiquei
a tarde toda estudando, estou mega atrasada!

– Como
você pode estar atrasada? O Enem e os vestibulares são apenas no fim do ano, e
você nem vai usar eles! Pode pegar mais leve. – ele disse bem descontraído.

– Mas
isso não significa que tenho que tirar uma nota baixa, preciso delas altas para
que meus pais me deixem ir para os Estados Unidos, e resultados maravilhosos
caso tente alguma universidade americana.

– Ah,
verdade! – ele passou os dedos entre os cabelos baixos. – Vou estar de serviço
hoje, não vamos poder nos ver à noite.


Precisava mesmo falar com você à respeito de nos ver a noite… – Ariel colocou
a mochila no chão buscando forças dentro de si, tentando encontrar pontas
soltas de certeza que andavam rondando seu estômago. Queria ter certeza de que
estava fazendo a coisa certa.  

– Nós
não vamos nos ver hoje nem nos próximos dias, entro em serviço esta tarde e vou
ficar em São Pedro duas semanas, devo voltar dia 22, passando essa terça agora,
só na outra… Mas o que você queria dizer mesmo? – Felipe fora mais rápido do
que Ariel.

– Nada,
era só que não ia dar pra gente se ver nesse fim de semana, mas já que você não
estará aqui, então tudo bem. – Ariel ficou com a garganta seca.  

– Ah,
sim. É, a rotina tem ficado mais puxada no quartel, está chegando a hora de ver
quem vai escolher a vida militar ou a comum. – ele sorriu, Ariel sorriu de
volta. – Então, vou ter que ficar lá muito mais tempo e voltar pra casa vai ser
muito cansativo.


Entendi. Se cuida e boa sorte! – Ariel sorriu, mas no fundo estava se
perguntando porque não tinham assumido uma relação aberta, onde poderia beijar
Felipe sem que estivesse escondida das outras pessoas. Por que tinha que ter
errado em algo tão importante?

– Pode
deixar. – Felipe lhe deu seu velho sorriso torto. – Não posso te beijar, mas
posso apertar sua mão?

– Ah? –
Ariel caiu na gargalhada, enquanto ele olhava para ela com muita seriedade. Ele
a convenceu. 
– Tá, pode!

Ele
apertou a mão dela, forte o bastante para mostrar a Ariel que ele não queria
soltá-la.


Imagine que estou te abraçando, sua cabeça está encostada no meu peito e beijo
seus cabelos… – ele sussurrou. – Assim que gostaria de te dar tchau.

– Foi o
melhor tchau que já recebi na vida. – Ariel sorriu, o seu melhor sorriso.

Algumas
horas mais tarde, enquanto estava perdida entre os livros da escola Ariel ouviu
o celular vibrar, após levantar alguns livros e algumas folhas o encontrou. Era
uma mensagem de Felipe pedindo que ela fosse até alguma janela da frente para
ele se despedir mais uma vez.

Ariel
foi até o espelho e desfez o coque que até então mantinha seu cabelo preso, a
imagem que Felipe carregaria dela nas próximas duas semanas não poderia ser de
uma garota descabelada e frágil. Depois do almoço Ariel subira para o quarto e
chorara baixinho, ela não queria ficar longe de Felipe duas semanas,
principalmente porque isso significava que depois que ele chegasse eles teriam
menos de duas semanas para ficarem juntos.

Ela
sabia que não deveria ter começado aquele “namoro”. Ele avisara que iria embora
em dois meses, mas Ariel imaginou que as oito semanas não passariam tão
depressa, e que o seu coração não se apegaria tanto a um garoto. Mas estava
começando a sentir o que era entregar o coração a alguém e a sensação desse
alguém ir para longe não era boa.

Soltou
os cabelos, lavou o rosto e mandou o semblante de choro embora. Caminhou com
confiança até o quarto das irmãs, ele estava vazio, as meninas estavam
brincando na praia com a mãe. Ariel foi até a janela e viu quando Felipe
colocou duas mochilas no carro. Ele estava de calça jeans e uma camisa preta,
com os velhos All Star vermelhos, um boné preto e óculos estilo aviador. Ele
estava leve e bonito, muito bonito. Ariel se encantou por ele mais uma vez.

Ariel
enviou um sms:

“Na
janela.”

Felipe
nem pegou o celular, apenas se colocou de pé ao lado do carro e olhou para ela.
Ariel acenou e ele sorriu. Eles ficaram se olhando por uns 5 minutos, até que
Felipe se virou ao ouvir a porta da frente se abrir, Paula caminhou até o filho
e o abraçou. Ariel se escondeu entre as cortinas das princesas da Disney e
ficou olhando entre as frestinhas esperando que Felipe a olhasse novamente, mas
ele não olhou. Antes de entrar no carro Mateus também se despediu do irmão e
logo Felipe 
estava dirigindo até o fim da rua.

Ariel
sentiu as lágrimas rolarem pelas bochechas mais uma vez e parecia que uma mão
esmagava seu coração aos pouquinhos, causando uma aflição em seu peito. Ela
começou a ficar desinquieta, voltou para o quarto, puxou a cadeira da
escrivaninha e se sentou. Abriu os livros mais uma vez e tentou se concentrar,
mas seu coração ainda estava naquela janela.

Sem
conseguir sucesso entre os livros, Ariel se jogou na cama e agarrou o
travesseiro, chorou baixinho mais uma vez e dessa vez desejou com todas as
forças que algo bom acontecesse, que 
alguma coisa mudasse em seu coração. Ariel
pegou no sono.

Quando
acordou sentiu a brisa fria entrar pela janela, as portas que davam para a pequena
varanda estavam abertas e o vento havia feito uma bagunça no quarto. Haviam
folhas por todo lado e o potinho de canetas que ficava em cima da mesa estava
todo esparramado pelo chão. A colcha de florzinhas da cama estava mais
no chão do que cobria o próprio colchão.

Ainda
sonolenta Ariel se levantou e caminhou até a varanda, foi envolvida pela brisa
e logo seus cabelos foram castigados pelo vento, o desejo de voltar para o
calor do quarto foi imediato. Mas ao olhar para o mar e ver o sol se recolhendo
e a escuridão correndo para alcançar os últimos raios, Ariel se lembrou do
sonho que tivera.

Ela
estava caminhando pela areia e seus olhos estavam presos ao sol, mesmo tendo
visto aquela mesma cena durante todos os anos da sua vida, aquele momento era o
preferido do seu dia. Ariel já havia se acostumado a ter sonhos assim, o mar e
o sol sempre lhe diziam algo, mas desta vez havia algo diferente, ela não
estava sozinha, podia ouvir pés tocando levemente a areia e ao olhar para o
lado se deparou com um homem de túnica branca, cabelos castanhos e uma barba
que cobria grande parte do rosto.

Ele
andava com tanta calma que parecia estar flutuando e havia uma paz tão grande
pela praia que a própria Ariel se sentiu mais leve, livre. Quando Ariel olhou
dentro de seus olhos lembrou-se de onde o conhecia, ele era o mesmo Jesus que
ela havia imaginado durante a pregação do pastor Miguel, e ele olhava para ela
com tanto amor e carinho que a garota não pode duvidar de que estava diante do
Filho de Deus.

Eles
caminharam por mais alguns instantes até que Jesus parou e fitou o mar, Ariel
parou ao seu lado e se deixou levar pelas ondas e pelo pôr do sol, de repente
sentiu a mão de Jesus segurar a sua. Ele olhava para ela mais uma vez. Ariel
começou a se lembrar do que estava fazendo com Felipe e de todas as mentiras,
seu estomago se embrulhou e ela sentiu necessidade de se abrir com Jesus,
quando ia começar a falar Jesus estendeu sua mão livre na direção de Ariel e
disse:

– Não
precisa dizer nada, Ariel. Eu sei de tudo. Eu vi tudo. – o sorriso que Jesus
trazia até então havia sumido, mas em seus olhos não havia raiva, crítica ou
superioridade, ele continuou a olhar para ela com seus olhos de amor. – Você
não nasceu para isso, Ariel. Nenhuma garota nasceu.

– Eu
sei, mas… – a voz de Ariel foi abafada pelas lágrimas.


Querida, não estou aqui para brigar com você, apenas quero conversar sobre
algumas coisas sérias. – Jesus sentou na areia e puxou levemente a mão de
Ariel, para que ela se sentasse também. – Você precisa saber que é merecedora
do amor, mesmo que na maioria dos dias não sinta essa verdade dentro do
coração. O amor chega quando menos esperamos, Ariel. – ele parou de falar para
secar as lágrimas que corriam pelo rosto da garota.

– Acho
que o amor já chegou… – Ariel disse enquanto fungava.

– Tem
certeza? Você pode me dizer com todo o coração que o que você e Felipe tem é
amor?

Ariel
pensou por um tempo e durante todo este processo seu coração dizia “não”, “não”
e “não”.

– Ariel,
posso te explicar uma coisa sobre o amor? – Jesus voltou a olhar para ela.
Ariel lhe deu permissão para continuar a falar. – O amor é capaz de trazer o
melhor de você. Amar é desejar ser melhor todos os dias, por você e por quem
você ama. Você e o Felipe tem sido melhores? O amor que vocês tem um pelo outro
tem os feito crescer? Amadurecer?

– Não
sei se o que temos é amor, Jesus. – Ariel cobriu o rosto com a mão livre.

– E você
quer se manter em um relacionamento onde não há amor, Ariel? Você acha que
assim será feliz?
– Sempre
achei que o amor seria construído ao longo do tempo.
– E é
assim que funciona, mas você entregará seu coração a qualquer um na esperança
de que o amor surja? Qual será o preço dessa escolha, querida?

– Eu não
quero isso pra mim, nunca quis ser machucada por ninguém…

– E foi
por isso que não se envolveu com nenhum garoto durante tantos anos. – Jesus
completou. – A decisão é sua, esperar pelo amor ou ficar correndo atrás dele.
Pense bem, essa é uma decisão que só você pode tomar. – Jesus soltou a mão de
Ariel e a envolveu em um forte abraço, Ariel se sentiu em casa pela primeira
vez em muitos anos e chorou tudo o que podia, suas lágrimas não se resumiam a
Felipe, mas a toda dor que andava entalada em seu coração. Jesus beijou o topo
da cabeça de Ariel. – Você sabe onde me encontrar.

E foi
assim que Ariel acordou. Ela fora dormir pedindo que algo mudasse, e lá estava
a mudança que pedira. Seu sonho fora real demais e ela não poderia esquecer
dele com tanta facilidade. Ela se sentia mais leve, como se um fardo tivesse acabado
de ser removido de suas costas.

Retornou
ao quarto e caminhou até sua velha penteadeira, enquanto prendia os cabelos em
um rabo de cavalo disse:

– Tenho
14 dias. 14 dias para fazer a minha escolha.

Naquela
noite Ariel foi a igreja com a família, estava mais receptiva aos louvores, as
ministrações e a pregação, e até conversou com alguns jovens após o culto.
Talvez a ideia de fazer da igreja uma família não fosse assim tão ruim.

– E ai,
doutora do amor? – Mateus desceu os últimos degraus da escada e se postou ao
lado de Ariel.


Falando em amor, onde a Ester está?

– Ela
não veio hoje. – Ariel percebeu um tom triste na voz de Mateus.

– Oh,
meu Deus! Você tá tristinho, é? – Ariel disse em meio a risadinhas.

Mateus
fez língua e cutucou o braço dela.

– Meu
irmão te contou que ele vai…

– Ficar
duas semanas no quartel? – Ariel cruzou os braços. – Sim. Ele me disse hoje
quando eu estava chegando da escola.

– Que
bom que ele disse.

– É.

– Será
que posso ir na sua casa amanha conversar com você?

– Você
vai se meter na minha vida de novo? – Ariel se virou e olhou nos olhos dele.

– Só se
você quiser! Dessa vez quero que você se meta na minha vida.

– Sério?
Não costumo ser uma psicóloga muito boa.

– Ei!
Ninguém é PHD em nada aqui. – Mateus riu. – Só quero conversar.

– Se
você começar a se meter na minha vida de novo, juro que vou chutar suas regiões
frágeis!- Ariel se esforçou ao máximo para parecer séria, mas seus olhos a
entregavam.

– Não
sabia que você era tão brava!

– Agora
tá sabendo. – Ariel o fuzilou com os olhos.

– Vou
registrar essa informação! Fique tranquila. Amanha de tarde passo por lá.

Paula, a
mãe de Mateus, parou bem ao lado do filho e sorriu para Ariel.

– Tudo
bem, querida?

– Tudo
sim, Paula.

– Mateus
não está te enchendo a paciência?

– Ainda
não. – Ariel disse rindo. – Mas pode deixar que se ele começar eu sei muito bem
me defender.

– Espero
que sim. – Paula disse rindo.

– Vamos,
filho?

– Vamos
sim.

Paula se
aproximou e se despediu de Ariel com dois beijos na bochecha, já Mateus saiu
atrás da mãe dando línguas a Ariel. Há quanto tempo não conhecia um garoto bobo
assim? Desde criança, quando conheceu Pedro… A sensação de permitir que outro
garoto se aproximasse, não como namorado ou pretendente, mas como amigo, era
confortante e ao mesmo tempo angustiante.

Confortante
porque ter um amigo era como ter um irmão mais velho, ele a protegeria, a
olharia com olhos puros, passaria horas conversando com ela não porque queria
arrancar-lhe um beijo, mas pelo simples fato de gostar de estar ao lado dela.
Ariel sempre achara que meninos eram mais sinceros que meninas, e ela
experimentara desse universo durante anos. Pedro sempre fora mais confiável que
Camila, em coisas simples como ao elogiar ou criticar uma roupa desde a mudar
de comportamento quando se está namorando. 

Camila
fizera isso durante toda a adolescência delas, mas Ariel não estava mais no
posto de julgar, porque segundo a própria Camila ela também estava mudando.

E ao
mesmo tempo pensar em Mateus como um amigo era angustiante porque ela temia
perdê-lo também, era fato que ele iria embora em breve, assim como ela. Ser
calculista era uma das maiores qualidades de Ariel, e um tremendo defeito
também. Sempre a frente ela imaginava o que cada decisão poderia levá-la a
viver e foi por ser assim que evitou de fazer a maioria das coisas que um
adolescente faz, como experimentar uma bebida, dançar loucamente por ai ou
entrar em qualquer relacionamento. Mas essa qualidade também a fizera perder
muita coisa, ela se privou de ter amigos, perdeu momentos simples que poderiam
ser inesquecíveis e não viveu uma adolescência leve, estava sempre ocupada
demais com o futuro.

Só que
desde que Felipe cruzara o seu caminho, essa arte de arquitetar sua vida
simplesmente desaparecera. Ariel não pensou nas conseqüências que teria se os
pais descobrissem de seus encontros com Felipe ou no quanto o seu coração poderia
sofrer quando chegasse à hora de Felipe ir embora.

Naquela
noite ao se deitar Ariel fez uma coisa que não fazia há tempo,s conversou com Deus.
Estava há mais de um mês sem conversar com Ele, por isso se sentiu acanhada e
distante, algumas vezes seu coração chegou a se perguntar se o Rei estava mesmo
a ouvindo, mas ai ela se lembrava do sonho que tivera durante a tarde, todas
aquelas palavras poderiam ter saído de uma imagem que ela criara de Jesus, mas
não seriam palavras que ela mesma inventaria. Era profundo demais, sincero
demais.

***

– Ariel,
acorde querida.

Ariel
acordou com a voz do pai, ele estava na porta com seu terno preto, pronto para
mais um dia de trabalho.

– O que
foi, pai? – Ariel sentou na cama juntando o cabelo em um rabo de cavalo.

– Nós
perdemos a hora hoje, mocinha! – Ariel olhou para o relógio no criado mudo,
eram 6:30, sua van já havia saído há uns 15 minutos. – Vou te levar para a
escola, tenho negócios em Esperança hoje.

– Tá
bom, pai. – Ariel se arrastou da cama.

– Não
demore, sweet heart. – Richard deixou Ariel sozinha no quarto.

E assim
Ariel começou a maratona de se arrumar em menos de 10 minutos. Correu para o banheiro
e escovou os dentes, ajeitou o rabo de cavalo que havia feito e voltou correndo
para o quarto. Antes de chegar ao guarda-roupa chutou a cama com o joelho e
gemeu de dor, não tinha tempo nem para esperar a dor passar. Vestiu sua velha e
adorada calça jeans, a tinha há mais de 4 anos, estava ficando desbotada e foi
com a missão de a manter viva por mais alguns anos que Ariel começou a
escondê-la depois de usar para que a mãe não a colocasse para lavar. Era uma
relíquia de adolescente, entende? 
Ela não poderia abrir mão de algo tão
precioso.

Ariel
jogou as apostilhas que precisaria e o fichário dentro da mochila, quando
voltou a escrivaninha para pegar o estojo de latinha viu a bíblia em cima de
alguns livros que ela andava lendo para o vestibular. A bíblia olhou para ela
de volta, e como se houvesse algum ima as aproximando, Ariel a pegou e colocou
na mochila, talvez pudesse ler na volta para casa.

Ela
calçou um velho par de All Star e pegou os fones de ouvido que estavam no
criado mudo, deixou o quarto e desceu as escadas sentindo o cheirinho de café
que invadia a casa.

– Uma
xícara bem cheia e meu dia será muito melhor. – Ariel disse enquanto se
aproximava do balcão da cozinha. O pai já havia colocado uma xícara para ela.


Torradas ou pão integral? – o pai perguntou enquanto Ariel se sentava.


Torradas. – Ariel pode sentir o gostinho da manteiga derretida no pão.

– Ontem
a tia Jen me ligou. – o pai disse enquanto colocava os pães na torradeira.

– Como
ela tá? – Ariel soprou o café e o bebericou na esperança de que já estivesse
bebível.

– Ela
está bem. Disse que está louca para vir ao Brasil, deve aparecer por aqui em
junho.

– Ah,
que bom! Já estou louca para vê-la! Ela não disse nada sobre mim?

– Sobre
você ou sobre você ir para lá? – o pai disse rindo, ele conhecia a filha bem o
suficiente para entender o interesse dela. As torradas ficaram prontas e ele as
colocou em um prato.

– Os
dois, pai. – Ariel disse enquanto pegava uma das torradas.

– Ela me
perguntou se você está animada pra ir mesmo. Eu disse: “É claro, e a culpa é
sua.” – o pai sorriu.

– Nem é
dela, você sempre falou disso.

– É, eu
sei. Tenho uma parcela de culpa muito grande nesse sonho seu, e sei que quando
você entrar naquele avião sua mãe vai jogar isso na minha cara todos os dias.     

– Acho
que não, pai. As gêmeas tomam demais o tempo dela, ela vai se acostumar rápido.

– Você
que pensa! Sua mãe e eu jamais vamos nos acostumar com essa casa sem você. Quem
vai ficar cantando lá em cima? Pra quem vou trazer discos de vinil? E não vou
ter mais você para dividir uma xícara de café todas as manhãs. – Richard fez
biquinho, e Ariel sentiu o drama real do pai a cada frase. Eles iam sofrer
mesmo com a ida dela, ela nunca pensou nisso. Passou tempo demais achando que
as gêmeas eram as únicas filhas que importavam. E olhou para o próprio umbigo
por um longo tempo.

– Não
precisa ser tão dramático, pai! Vocês vão sobreviver. A vovó não sobreviveu
quando você se casou com a mamãe e veio para o Brasil?

– É, ela
sobreviveu, mas sofreu.

– Você
está dramático demais hoje, pai. – Ariel sorriu gentilmente e terminou o seu
café.

– Nós
estamos atrasados, muito! – Richard pegou a sua xícara e a de Ariel e as
colocou na pia. – Vamos?

– Uhun.
– Ariel pegou a mochila que havia jogado no chão e foi para fora.

Assim
que entrou no carro Ariel ligou o aparelho de som. O pai gostava de música
tanto quanto a filha e sempre havia um cd novo no aparelho. Uma das sensações
favoritas de Ariel era a euforia misturada com ansiedade que sentia toda vez
que ligava o som do pai, ela nunca sabia o que ele estava escutando e ao se
deparar com uma música nova e capaz de a fazer suspirar, ela se encantava ainda
mais com o universo musical e com o bom gosto do pai.

Desta
vez ele estava ouvindo uma banda internacional e antes de comentar qualquer
coisa sobre a banda, sobre os arranjos, ou perguntar quem eles eram, Ariel se
perdeu na letra. De olhos fechados ela buscou pela tradução de cada uma das
frases.

E a
música dizia assim:

“Eu sou
o Senhor seu Deus, Eu vou a sua frente agora.
Eu
permaneço ao seu lado, Eu estou ao seu redor,
E embora
você sinta que Eu estou longe,
Estou
mais próximo que sua respiração,
Eu estou
com você mais do você pensa.
Eu sou o
Senhor sua paz, nenhum mal irá te conquistar.
Fortifico
o seu coração e mente, venha para o Meu descanso.
Deixe
sua fé surgir e erga sua cabeça.
Eu estou
com você aonde quer que vá.
Venha
para mim, Eu sou tudo que você precisa.
Venha
para mim, Eu sou tudo.
Venha
para mim, Eu sou tudo que você precisa.
Venha
para mim, Eu sou seu tudo.
Eu sou
sua ancora, nas ondas e nos ventos.
E Eu sou
seu firmamento, então não fique com medo,
Embora
seu coração e carne possam trair você, eu sou sua força fiel
E eu
estou com você aonde quer que você vá.
Venha
para mim, Eu sou tudo que você precisa.
Venha
para mim, Eu sou tudo.
Venha
para mim, Eu sou tudo que você precisa.
Venha
para mim, Eu sou seu tudo.
Não olhe
para a direita ou para a esquerda, mantenha seus olhos em mim,
Você não
será sacudido, você não será movido.
Eu sou a
mão para segurar, Eu sou a verdade, Eu sou o caminho
Só venha
para mim, venha para mim,
Pois eu
sou tudo que você precisa.”   

1º dia. Ariel disse a si mesma.

– Pai,
quem canta essa música?

– Bethel
Music! É lindo né?


Demais. – Ariel pegou o celular e digitou o nome da banda em um bloco de notas.

– Nós
deveríamos aprender a ser mais confiantes, a ver Deus como nosso tudo.

– Pai,
você não acha louco a gente acreditar em alguém que nunca viu?

– A
bíblia mesmo diz lá em I Coríntios que Deus escolheu o que para o mundo parece
loucura, para Ele envergonhar aqueles que se acham tão sabichões. É meio louco
mesmo, eu sei, principalmente quando se é adolescente e quer saber de tudo. Às
vezes é mais fácil acreditar na possibilidade de um romance de entre uma humana
e um vampiro, do que na existência de um Deus que cuida da gente né?

– É,
mais ou menos. – Ariel estava com saudade das conversas sinceras com o pai.

– Eu fui
adolescente, eu sei. – o pai disse com ar de sabichão. – Vai ser meio clichê,
mas você se lembra com certeza de umas das cenas finais do filme Um amor para recordar, você tem que
lembrar, você me fez ver aquilo tantas vezes!

– Sei
cada detalhe daquele filme, pai! – Ariel sorriu.

– Então,
sabe quando o garoto fica lá pensando que o amor que ele e a garota sentiam era
como o vento…

– Sim,
“Não posso ver, mas posso sentir.” É exatamente isso que o Landon diz sobre o
amor dele e da Jamie.

– Você
viu isso demais. Vamos voltar ao clichê… O amor de Deus por nós e até Ele
mesmo funciona da mesma forma, nós não somos capazes de vê-Lo, mas podemos
senti-Lo. Podemos não O ver durante o culto ou até mesmo agora, mas Ele está
aqui, sempre esteve. Quer uma prova disso? Olhe para a nossa vida, há dedo de
Deus em todo lugar. Durante a gestação da sua mãe Ele esteve conosco e foi por
causa da misericórdia dEle que as suas irmãs nasceram e a sua mãe também
permaneceu bem. Foi por causa dEle que sua mãe e eu nos conhecemos, foi Ele e
ainda é Ele que mantêm o nosso amor e nos faz caminhar tão bem juntos. Deus
está aqui, Ariel, mesmo quando você não é capaz de vê-Lo.

– Até
mesmo quando a gente não O chama mais?

– Só
porque nós desistimos de nós mesmos, não significa que Deus também desistiu. Ou
quando desistimos dEle. Na verdade, Deus é o último a desistir. Quando não O
chamamos mais, Ele vai ter que se afastar uma hora, mas primeiro Ele fará de
tudo para nos abraçar de novo. – o pai parou de falar por um instante, enquanto
fazia uma curva. – Você tem se sentido distante dEle?

Ariel
não tinha certeza se deveria falar sobre isso com o pai, não seria mais fácil
debater esse assunto consigo mesma? Ela com certeza conseguiria chegar a uma
resposta. Só que sempre fora tão fácil conversar sobre tudo com o pai, pelo
menos era quando ela era mais nova.

– Um
pouco. Acho que eu nunca levei Deus muito a sério, talvez seja por isso que O
esteja sentindo 
longe agora, eu mesma posso estar afastando-O.

– Por
que você acha que não O leva muito a sério? – o pai perguntou gentilmente, não
como quem estava pronto para julgar, mas como um pai que estava pronto a
ajudar.

– Porque
a bíblia nunca me chamou tanto a atenção, sabe? E diferente do que todo mundo
vive dizendo, eu nunca senti a igreja como uma casa, como a casa de Deus e como
a minha casa. – Ariel respirou mais fundo, aquelas verdades estiveram guardadas
em seu coração há muito tempo, ela jamais imaginou contá-las a alguém, eram
profundas e secretas demais.

– Sabe
filha, acho que alguma coisa está mudando ai dentro. Seu coração deve estar em
reforma. A maioria dos adolescentes não se preocupa com a forma como tem visto
a Deus, você pode contar como uma vitória o seu coração estar se preocupando
com isso. Não adianta eu te dar uma lista de coisas que você pode fazer para
mudar isso, estaria sendo um pouco leviano. Como seu pai, devo ajudar você a
cumprir cada uma delas. Que tal?

– Acho
que essa ideia muito me agrada. – Ariel estava mais que feliz, nunca imaginou
que uma 
conversa dessas poderia acontecer.

– Que
tal tirarmos um tempinho para conversarmos hoje à noite? Você, sua mãe e eu?
– Será
que a mamãe não vai ficar brava com tudo isso? Ela não vai achar confuso?

– Você
tem medo que a sua mãe te julgue? Foi por isso que demorou me contar isso?

– Sim…

– Sua
mãe seria a última pessoa nessa terra a te julgar. Acho que nós precisamos mesmo
sentar para conversar.

O 15
minutos de viagem seguintes foram regrados a música e uma conversa mais leve.
Ariel estava louca para que o dia passasse e chegasse a hora dela conversar com
os pais. Ela tinha 14 dias para mudar, para fazer uma decisão, o primeiro dia
estava começando super bem.




Escrito por: Thaís Oliveira

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